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Pesquisa investiga como políticas públicas em saúde afetam a juventude brasileira

14/10/2020
Por : 
Flávia Lobato* Jaqueline Gomes

 

Investigar mais a fundo como as políticas públicas em saúde vêm afetando a juventude brasileira. Este foi o objetivo do Grupo de Trabalho (GT) de Pesquisa da Iniciativa Agenda Jovem Fiocruz, que mapeou a produção científica dos pesquisadores da instituição sobre temas relacionados à adolescência e juventude, no período de 2006 a 2016. Com o apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o levantamento identifica os problemas de saúde dos adolescentes e jovens que vêm sendo estudados pela comunidade científica da Fiocruz, bem como enfoques e também ausências.

O resultado á apresentado no relatório Estado do conhecimento da produção científica da Fiocruz sobre juventude e saúde (2006 a 2016). Mais do que a revisão de literatura, esse trabalho permite desenhar novas agendas de pesquisa, abrindo possibilidades de intercâmbios e experiências neste múltiplo campo de abordagens. Para comentar o estudo inédito http://observatorio.fiocruz.br/estudos/pesquisa-investiga-como-politicas-publicas-em-saude-afetam-juventude-brasileira , o Observatório em Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde da Fiocruz conversou com o pesquisador André Silva Sobrinho, um dos coordenadores da Agenda Jovem. Ele conta mais sobre os objetivos do levantamento e a publicação (leia mais a seguir).

 

Quais os principais objetivos da pesquisa?

O principal objetivo foi compreender as múltiplas abordagens da produção científica da Fiocruz sobre Juventude e Saúde de 2006 a 2016. Algumas perguntas foram centrais nessa pesquisa: Quais os problemas de saúde de adolescentes e jovens estudados pela comunidade científica da Fiocruz? Por outro lado, que problemas não estão sendo abordados, embora façam parte da realidade da juventude brasileira? Que temáticas precisam ser mais evidenciadas?

 

Adotamos este recorte temporal porque nas últimas décadas houve uma profusão de diagnósticos das políticas nacionais, que revelaram uma condição juvenil brasileira contemporânea. Neste período, vários espaços abertos (como a realização de fóruns) estimularam a maior participação social e a construção de políticas e programas baseadas em novos marcos de direitos da juventude, com ênfase na população de 15 a 29 anos.

 

É a primeira vez que se tem estes dados organizados numa publicação da Fiocruz sobre este tema?

Historicamente, a Fiocruz tem muitas contribuições na linha das políticas universais (como educação, divulgação científica, e ciência e tecnologia) em estudos e ações voltados aos adolescentes e jovens. Mas este é o primeiro estudo que organiza um  “Estado do Conhecimento” no campo da saúde, em linha com as novas diretrizes das políticas públicas de juventude no Brasil no período (2006-2016).

 

O que você destaca neste conjunto de informações?

Há uma potência da Fiocruz para abarcar questões relacionadas à saúde de adolescentes e jovens. Na instituição, percebe-se o fomento a uma política interna que possibilite a criação de conexões entre unidades, instituições e pesquisadores. Esta estratégia visa constituir uma linha de investigação multidisciplinar que alcance a complexidade das questões das condições de vida e saúde que afetam esse grupo social.

 

Pela própria vocação e tradição científica da Fiocruz no campo da biomedicina, observa-se a prevalência nos estudos de uma leitura orientada por pressupostos e parâmetros deste campo. Assim, a área de medicina e ciências biológicas tiveram destaque, bem como os métodos quantitativos que lhe são característicos. Igualmente relevante é observar o número de investigações no grupo temático de “agravos transmissíveis e não transmissíveis” que denota ênfase no acometimento de doenças stricto sensu. Contudo, poucas referências destacaram o processo saúde e doença pela ótica da sua determinação social.

 

Ainda há uma carência de estudos críticos sobre a história das políticas de saúde para a juventude no Brasil com uma abordagem mais matricial e menos segmentada. Ou seja, encontramos estudos voltados a temas específicos que emergem do quadro epidemiológico mais evidente, a saber: violências, saúde sexual e reprodutiva, uso abusivo de álcool e outras drogas etc. Entretanto, ainda não há um inventário analítico unificado de tais políticas, articulado a um marco conceitual comum. Essa ausência reflete uma insuficiência do próprio campo de estudos sobre políticas públicas de juventude, considerando sua história recente.

 

Observa-se uma certa leitura homogênea sobre o “ser jovem”, com pouca reflexão e explicitação sobre o impacto de marcadores sociais da diferença (raça/cor, gênero, território, rurais ou urbanos etc.,) nas condições de vida e saúde destes sujeitos. Há também mais presença da faixa etária da adolescência (12 a 17 anos) e em menor escala de jovens (18 a 29 anos).

 

Outros temas que mereceriam mais atenção e foram pouco encontrados são, por exemplo: os múltiplos aspectos ligados ao uso da tecnologia e da internet, a saúde mental em suas diversas escalas e dimensões, o ativismo juvenil nos movimentos sociais em saúde. Considerando as mutações do capitalismo contemporâneo e a ocupação de postos de trabalho informais e precários da atual geração de jovens, a saúde de trabalhadores (as) jovens foi pouco abordada.

 

Qual a principal contribuição deste trabalho?

Estudos como este são sempre importantes para mostrar o estado da arte, identificando presenças, enfoques e ausências. Quando bem utilizado, o levantamento permite colaborar em revisões de literatura, estimula o desenho de novas agendas de pesquisa e abre possibilidades de intercâmbios e experiências em um múltiplo campo de abordagens presentes no mesmo assunto. Esperamos estimular as unidades e pesquisadores da Fiocruz a dedicar mais interesse científico à juventude brasileira, a fim de diminuir o sofrimento que doenças e agravos à saúde podem causar a esse grupo populacional. Além disso, é muito importante nos dedicarmos a compreender os problemas sociais que afetam a vida de jovens no contexto contemporâneo.

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