Redes de Pesquisa em Tuberculose

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Por que avaliar essa rede?

A tuberculose é uma das principais causas de morte por doença infecciosa em todo o mundo. A doença foi classificada pela Organização Mundial de Saúde como uma emergência de saúde pública global e combate-la é um dos objetivos de desenvolvimento sustentável para assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.
Nesse contexto, a pesquisa em tuberculose torna-se cada vez mais importante para que possam ser desenvolvidas novas formas de diagnóstico, vacinas e medicamentos para tratamento. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) tem ampla atuação na pesquisa em tuberculose, incluindo projetos de pesquisa clínica, promoção da saúde, diagnóstico molecular e imunológico, susceptibilidade genética e resistência à doença, genômica funcional e interação patógeno-hospedeiro.
Para a Fiocruz, o esforço de compreender a dinâmica institucional de produção e colaboração científica na temática da tuberculose é uma estratégia importante de gestão institucional da pesquisa. Conhecer a dinâmica da rede nacional de colaboração científica em tuberculose, suas características estruturais, competências e pesquisadores mais centrais permite medir a eficiência da geração e difusão de conhecimento em tuberculose e identificar pesquisadores da instituição que são influentes na área. A análise da rede interna de pesquisa pode identificar áreas-chave e riscos de fragmentação, indicando pontos de melhoria para o fortalecimento das relações internas. Em última instância, essa avaliação pode se configurar como uma estratégia para direcionar melhor os esforços institucionais e para auxiliar a formulação de políticas internas que consolidem a pesquisa em tuberculose na instituição.
 

Como foi feita a análise?

A rede brasileira de colaboração em pesquisa sobre tuberculose foi construída com base na coautoria de artigos científicos publicados durante o período 2005-2014 (10 anos). A coautoria de artigos científicos é uma representação oficial da colaboração de dois ou mais autores (pesquisadores) ou instituições, sendo frequentemente utilizada para analisar padrões de cooperação científica e tecnológica.
Os dados das publicações científicas foram obtidos na base de dados Web of Science (WoS), mantida pela Thomson Reuters. Para a construção da rede, as instituições ou pesquisadores foram representados por meio de círculos e uma ligação entre eles indicou que ambos compartilharam a autoria de um artigo científico. A partir da construção da rede, foram avaliados dois tipos de indicadores:
- Indicadores de coesão e conectividade da rede, que medem o quanto a rede é eficiente em gerar e difundir conhecimento;
- Indicadores de centralidade, que identificam as instituições ou indivíduos mais influentes na rede.
 

Principais resultados

Colaboração interinstitucional

O primeiro passo foi avaliar a evolução da rede brasileira de pesquisa em tuberculose. Para isso, a rede foi construída em dois períodos distintos de 5 anos, de 2005 a 2009 e de 2010 a 2014. A rede do primeiro quinquênio incluiu 239 instituições nacionais e 243 instituições internacionais. A rede do período seguinte envolveu 336 instituições brasileiras e 549 instituições estrangeiras. O crescimento da participação de instituições internacionais na rede de pesquisa brasileira reflete esforços colaborativos internacionais crescentes.


Visualmente é possível perceber que houve um aumento de tamanho da rede com o passar dos anos. Esse aumento de tamanho também foi acompanhado por um aumento da coesão e conectividade da rede, revelado pela evolução dos indicadores calculados (número de nós e ligações, tamanho do componente gigante, grau médio, coeficiente de agrupamento médio, comprimento médio de percurso, e conectividade e fragmentação). Esses indicadores mostram que a rede brasileira de pesquisa em tuberculose é potencialmente muito eficiente na geração de conhecimento (alta conectividade) e compartilhamento e difusão de conhecimento (baixa distância).
O próximo passo foi analisar o papel da Fiocruz nessa rede por meio das análises de centralidade, realizadas por meio do cálculo de três medidas diferentes: a centralidade de grau, centralidade de intermediação e centralidade de auto-vetor. Essas análises permitem a identificação das instituições mais influentes da rede em cada período.

A Fiocruz tem:
- alta centralidade de grau, que indica um alto número de conexões diretas (colaborações);
- alta centralidade de intermediação, que mostra que a instituição tem o poder de controlar o fluxo de informação na rede, funcionando como uma ponte entre grupos que na sua ausência estariam desconectados;
- alta centralidade de auto-vetor, mostrando que a organização está frequentemente relacionada a outras instituições bem conectadas da rede.
Como uma das instituições centrais da rede, a Fiocruz provavelmente teve papel importante na manutenção da coesão/conectividade da rede, garantido que organizações menos conectadas ou periféricas tivessem acesso a novos conhecimentos e informações.

Colaboração individual
A rede de colaboração individual foi construída com base em todos os artigos recuperados de 2005 a 2014. A rede envolve 6.403 pesquisadores que realizam pesquisa em tuberculose, dentre autores principais e coautores, incluindo 208 pesquisadores da Fiocruz (3,25%). A confirmação da afiliação desses pesquisadores foi feita por meio da consulta a uma lista institucional oficial de todos os servidores da Fiocruz.
O algoritmo utilizado para ajustar o layout da rede (Forced Atlas 2) posiciona os nós de acordo com a força das ligações entre eles, fazendo com que os pesquisadores mais fortemente conectados encontrem-se mais próximos uns dos outros. É possível observar que os pesquisadores afiliados à Fiocruz estão distribuídos por toda a rede e não concentrados em um agrupamento institucional. Isso mostra que esses pesquisadores cooperam de maneira abrangente com os demais pesquisadores atuantes na área, independentemente de estes serem afiliados à Fiocruz.

Três pesquisadores da Fiocruz pertencentes ao Instituto Oswaldo Cruz (IOC, Fiocruz RJ) estão dentre os dez cientistas mais influentes da rede brasileira de pesquisa em tuberculose, segundo as medidas de centralidade calculadas (grau e intermediação). Esses pesquisadores atuam principalmente nas áreas de Microbiologia aplicada e Genética de micro-organismos, possuem um alto número de conexões com outros autores da rede e também atuam como intermediadores do fluxo de informação. Essas características os tornam indivíduos importantes para a Fiocruz uma vez que eles têm acesso frequente a novas informações ou recursos e podem facilitar a transferência de conhecimento para a instituição.

​Colaboração intrainstitucional
Para analisar a cooperação intrainstitucional, as redes de coautoria entre os pesquisadores afiliados à Fiocruz foram construídas com base em todos os registros recuperados dos anos de 2005 a 2014


O Instituto Oswaldo Cruz - IOC é a unidade com o maior número de pesquisadores na rede (31,4%), seguido do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas - INI (16,91%) e da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca - ENSP (16,43%). É possível observar que há alguns pesquisadores não conectados, sinalizando uma possibilidade de intervenção para integra-los a rede. Nota-se ainda agrupamentos entre pesquisadores pertencentes à mesma unidade, indicando uma maior tendência de colaboração dentro da própria unidade do que interunidades.
No maior componente da rede há nove comunidades diferentes, identificadas de acordo com a frequência de colaboração entre seus membros. Para cada comunidade foram identificadas as principais áreas de pesquisa de acordo com informações sobre as áreas de atuação dos pesquisadores integrantes, constantes de seus Currículos Lattes

 
   

 

Conclusões

- Durante o período de 2005 a 2014 o Brasil ampliou consideravelmente a colaboração em pesquisa em tuberculose, refletindo a complexidade da pesquisa científica e a necessidade crescente de cooperar como forma de atingir objetivos comuns.
- A rede brasileira de pesquisa em tuberculose se mostrou muito eficaz na geração, compartilhamento e difusão de conhecimento, mantida por instituições centrais chave, incluindo a Fiocruz;
- A Fiocruz teve papel importante tanto na disseminação de conhecimento em tuberculose quanto na manutenção do acesso a esse conhecimento por outras instituições;
- A Fiocruz possui três pesquisadores entre os dez mais influentes da rede de pesquisa em tuberculose nacional. Esses pesquisadores podem atuar como fontes de informação sobre as tendências tecnológicas para os próximos anos e identificar possíveis parceiros para cooperação no desenvolvimento de novas pesquisas;
- Existe uma fragmentação da rede interna de pesquisadores que realizam pesquisa em tuberculose na Fiocruz, sinalizando a necessidade de uma reorganização ou articulação dos pesquisadores não conectados por meio de estratégias de indução;
- Existem nove comunidades diferentes na rede de colaboração interna da Fiocruz: três delas atuam na área de Clínica médica, duas que atuam na área de Saúde pública, e outras quatro comunidades atuam nas áreas de Microbiologia aplicada, Imunologia e/ou Genética;
- Há uma clara divisão/distanciamento entre a comunidade que atua na área de Clínica médica e a comunidade que atua em Saúde Pública, o qual é mitigado pelas comunidades que atuam nas áreas de Microbiologia aplicada, Imunologia e Genética. Seria importante compor um grupo que unisse os pesquisadores líderes de cada comunidade para fornecer uma visão mais holística e integrada dos processos e projetos da Fiocruz, agregando diferentes visões sobre a pesquisa em tuberculose;
- Poderíamos sugerir que os pesquisadores da Fiocruz identificados como mais centrais sejam mobilizados para assessorar e apoiar decisões estratégicas sobre os rumos e investimentos da pesquisa em tuberculose realizada na Fiocruz. Esses mesmos pesquisadores podem ter papel não só na integração de membros desconectados da rede interna, como também na aproximação de diferentes áreas de pesquisa em tuberculose que já estão sendo desenvolvidas na instituição. Novos projetos de pesquisa que atendam a necessidades de saúde pública, integrando diferentes visões dentro da temática da tuberculose podem ser importantes meios de fomentar essa cooperação.
 

Limitações da análise

Diferentes perspectivas sobre a colaboração na pesquisa poderiam ter sido exploradas. Reconhecemos a limitação do uso de dados de coautoria como indicador de colaboração científica sabendo que nem todos os esforços de colaboração resultam em publicações, e que nem todos os trabalhos em coautoria implicam necessariamente a colaboração sob a forma de compartilhamento de conhecimentos. Ainda assim, presume-se que na maioria dos casos, a coautoria indica uma cooperação ativa entre os parceiros, para além da simples troca de material ou informação.
Provavelmente nem todos os pesquisadores da Fiocruz que trabalham com tuberculose foram identificados como autores dos artigos recuperados do banco de dados da WoS e, por esse motivo, não estariam incluídos na análise. Embora a WoS tenha uma cobertura de mais de 12.000 periódicos científicos, é possível que algumas revistas nacionais, regionais ou de disciplinas especializadas não estejam na base de dados.

​Coordenação geral

Wagner de Jesus Martins - Colaboratório de Ciência Tecnologia e Sociedade, Diretoria Regional de Brasília (DIREB), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

Coordenação do estudo

Bruna de Paula Fonseca e Fonseca - Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS), Fiocruz

Equipe

Kizi de Souza Araújo – Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnologia em Saúde (ICICT), Fiocruz

Marcus Vinícius Pereira da Silva – Casa de Oswaldo Cruz (COC), Fiocruz

Ricardo Barros Sampaio - Colaboratório de Ciência Tecnologia e Sociedade, DIREB, Fiocruz

Pesquisador consultor

Milton Ozório Moraes – Coordenação Geral de Pós-Graduação, Vice Presidência de Ensino Informação e Comunicação (VPEIC)

Tipo de indicador: 
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