Rei não bate, folhinha de abacate: sobre mentores, discípulos e a consolidação de uma área científica no Brasil

Compartilhe!
Adeilton Brandão       É sobre esse cenário juvenil de desafios, riscos, habilidades, liderança, cooperação e competição que podemos construir uma analogia com o relato da genealogia de uma importante área de conhecimento científico aqui no Brasil, a protozoologia." data-share-imageurl="http://observatorio.fiocruz.br/sites/default/files/lu2.jpg">

Por Adeilton Brandão 

“Crianças Brincando” – Heitor dos Prazeres - 1963 Nas brincadeiras juvenis em uma certa cidade do interior de Minas Gerais, era comum antes do início de um jogo que os participantes buscassem pronunciar, o mais rápido possível, a seguinte frase: “rei não bate, folhinha de abacate!” Aquele que gritasse primeiro estas palavras teria assegurado uma espécie de “proteção” naquele jogo, isto é, ele participaria do jogo mas não sofreria nenhuma das penalidades previstas caso estivesse do lado perdedor. Em algumas brincadeiras esta “proteção” era muito relevante, pois as penalidades poderiam ser muito duras, sobretudo quando os participantes do lado vencedor eram fisicamente mais robustos! Esta regra era compreendida e aceita por todos, e obviamente muito disputada a primazia pelo brado da frase, razão pela qual a participação nesses jogos deveria seguir um certo “roteiro estratégico”. Se as suas habilidades fossem melhores que as dos seus concorrentes, então não haveria necessidade de gritar primeiro estas palavras, mas se você não estivesse seguro destas habilidades, ou pronunciaria a frase primeiro ou então, prudentemente, que arranjasse um aliado competente, ou ainda que ficasse de fora.

Como sempre, havia aqueles que, superestimando as suas habilidades ou subestimando os seus concorrentes, e sem o devido conhecimento das regras do jogo, assumiam o risco e se transformavam em dramáticos perdedores. Mas havia também aqueles que, dispondo de melhores habilidades e desejosos de aumentar a sua influência sobre os demais, se dispunham a cooperar para que alguns desses menos habilidosos pudessem participar das brincadeiras e suportar eventuais penalidades.

Estes indivíduos, em geral com amplo conhecimento das táticas e estratégias dos jogos, cumpriam um papel que adequadamente denominaríamos de “mentores”, pois a eles recorriam os menos habilidosos ou inexperientes (os discípulos) que desejassem participar dos jogos de qualquer maneira. Este processo de “mentoria” juvenil espontânea e sem regras explícitas era um reflexo primário de um fenômeno mais geral e necessário em toda atividade humana sob variados formatos: a liderança. Naquele contexto de jogos juvenis, isto significava que estes indivíduos mais talentosos deveriam definir os seus grupos de influência, ou seja, conseguir o maior número possível de adeptos e aliados, o que também lhes traria maior competitividade, prestigio e admiração.

No fundo, os jogos comportavam uma outra disputa, implícita e silenciosa, entre os poucos meninos talentosos e confiantes que incentivavam as palavras de proteção para atrair participantes para sua área de influência. Mas os grupos não eram estáticos: as vezes se dissolviam e se reconstruíam de acordo com o grau de confiança que os mais habilidosos inspiravam. Ou então poderiam ser totalmente remodelados com a chegada de novos participantes, habilidosos ou não. O processo em si era muito dinâmico, até certo ponto meritocrático, o que tornava os jogos ainda mais atraentes pelas inúmeras combinações de alianças e estratégias para definir quem era o melhor. E claro, havia as palavras poderosas de proteção, objeto de desejo de muitos: rei não bate, folhinha de abacate. Na estrita moral dos meninos daquela época, não se esperava que os mais capazes (os mentores) fossem pronunciá-las.

É sobre esse cenário juvenil de desafios, riscos, habilidades, liderança, cooperação e competição que podemos construir uma analogia com o relato da genealogia de uma importante área de conhecimento científico aqui no Brasil, a protozoologia. O estudo, realizado por Elias e cols. e publicado na revista científica “Memorias do Instituto Oswaldo Cruz” na edição de janeiro 2016, traça um rigoroso histórico do florescimento e consolidação de uma área que representa o melhor e mais genuíno aporte brasileiro para a ciência mundial. É desta área que se destaca o nome do nosso mais ilustre cientista, Carlos Chagas, autor único da descoberta da tripanossomíase americana (a Doença de Chagas), do seu agente infeccioso (o protozoário flagelado Trypanosoma cruzi) e do vetor que o transmite aos seres humanos (os triatomíneos hematófagos). Por motivos que desconhecemos (e que talvez nunca saibamos!), não foi agraciado com o prêmio Nobel de Medicina, uma injustiça se considerarmos a importância desta descoberta para a Medicina.

No estudo desenvolvido por Elias e cols., é evidenciado que a protozoologia, que também pode ser considerada um ramo de outra área maior, a parasitologia, constitui-se em uma importantíssima raiz da ciência brasileira. Isto pode ser confirmado não apenas pelos nomes dos grandes pesquisadores que atuaram e atuam nesta área, mas sobretudo pelo seu caráter formador de novos talentos, de gênese dos novos cientistas, que multiplicando-se através do dualismo mentor/discípulo, atravessam os domínios da protozoologia/parasitologia e se estabelecem em outras áreas do conhecimento. Embora não dispomos de dados precisos, podemos estimar que a parasitologia tem sido a porta de entrada para uma expressiva parcela dos cientistas em atividade no Brasil. Isto significa que os aspirantes a carreira científica na grande área das ciências biológicas no Brasil, tem o seu batismo no método científico por meio dos estudos com protozoários parasitas, sobretudo os de importância médica (e.g., Trypanosoma cruzi, Leishmania, Plasmodium, Toxoplasma etc).

 Este predomínio da protozoologia talvez não fosse duradouro se o CNPq e a CAPES (os principais financiadores da pesquisa científica no Brasil) não tivessem sido criados na década de 1950. Estas duas agências possibilitaram a institucionalização da ciência brasileira, conferindo-lhe a regularidade de recursos e oportunidade de planejamento estratégico tão necessários ao ciclo virtuoso do desenvolvimento científico. A este processo se soma a organização dos cursos de pós-graduação na década de 1960, impulsionando ainda mais o crescimento da nossa produção científica, que em termos numéricos, vem posicionando o Brasil entre os 15 maiores produtores de artigos científicos no mundo. Ainda nos falta o aumento do componente qualitativo dessa vasta produção, mas isto é algo que precisa estar alinhado a algumas mudanças estruturais no processo de formação dos novos pesquisadores, como por exemplo, rever a função dos cursos de mestrado e dar ênfase ao doutorado como único e suficiente estagio na formação inicial de um pesquisador.

A partir do trabalho de Elias e cols. é possível inferir que a protozoologia tem contribuído enormemente no crescimento desses números, seja diretamente pelos artigos sobre os mais diversos parasitas, seja pelo efeito multiplicador na formação de novos cientistas. Dessa forma, o suporte institucional e estratégico à produção científica nacional consolida a tendência observada no início do século XX, com os trabalhos dos desbravadores da protozoologia brasileira apontando os desafios, os riscos, e a urgência no enfrentamento das doenças parasitarias e seus vetores.

 Analogamente aos jogos juvenis mencionados acima, devemos identificar e estimular as habilidades para o enfrentamento desses desafios, definir regrar e estratégias que possam ser aceitas por todos os participantes, e propiciar aos talentos e lideranças emergentes um ambiente favorável ao seu aprimoramento. Mas será que precisamos de uma frase de proteção como “rei não bate, folhinha de abacate”? Estritamente falando não, pois não é considerada boa prática de planejamento estratégico em uma área tão dinâmica e meritocrática que um grupo de cientistas (ou indivíduos de modo geral) tenha privilégios em relação aos seus pares. Por outro lado, é possível sim, pensar em incentivos que aumente a cooperação, o uso eficiente de recursos, a propensão ao risco e o impulso criativo entre os diversos grupos participantes. Os detalhes dessa estrutura de progressão científica, as minucias táticas e arranjos colaborativos, devem ficar a cargo daqueles que não se espera o brado de frases protetoras: os talentosos, os criativos, os arrojados, os visionários, os iconoclastas inovadores, enfim os mentores..., que um dia também foram discípulos!
 
Referência:
 
Elias MC, Floeter-Winter LM, Mena-Chalco, JP. The dynamics of Brazilian protozoology over the past century. Mem Inst Oswaldo Cruz, 111 (1): 67-74, January 2016
http://memorias.ioc.fiocruz.br/issues/past-issues/item/6089-0386_the-dyn...
  
 
Nota: a cidade do estado de Minas Gerais mencionada no início deste texto chama-se Carlos Chagas, e está localizada no Vale do Mucuri, próximo a divisa com o sul da Bahia. O autor deste texto nasceu e cresceu nesta cidade, tendo vivenciado os jogos daquela época. Por conhecer bem as suas regras e estratégias, pode oferecer orientações aos inexperientes e recém-chegados, mas declinou das disputas de “mentorias”. Foi um observador atento destes jogos e de seus participantes.
 

Conteúdo Barra lateral: 
The dynamics of Brazilian protozoology over the past century
Compartilhe!
Adeilton Brandão       É sobre esse cenário juvenil de desafios, riscos, habilidades, liderança, cooperação e competição que podemos construir uma analogia com o relato da genealogia de uma importante área de conhecimento científico aqui no Brasil, a protozoologia." data-share-imageurl="http://observatorio.fiocruz.br/sites/default/files/lu2.jpg">