As mulheres e a ciência: quais desafios?

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Por Cristiane Andrade     Entender o trabalho das mulheres que fazem e pensam a ciência é necessário. Por meio deste entendimento, é possível verificar o modus operandi das relações de gênero, das múltiplas atividades desenvolvidas por elas, das conquistas e desafios. É também a oportunidade de “dar vozes” àquelas que estão na linha de frente da produção da ciência.  

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Por Cristiane Andrade 

Com Licença Poética

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa me casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos – dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
á a minha vontade de alegria,
sai raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

(Adélia Prado.)

Foi com a interlocução de Adélia Prado em “Com licença poética” que propus tecer algumas considerações sobre o fazer ciência. Um dos questionamentos centrais foi: os verbos descobrir, inventar, refutar, investigar, desbravar, reconhecer, analisar e pesquisar podem ser conjugados no feminino? Será que ser cientista é “cargo muito pesado” para mulher? Neste sentido, sinalizo que a presença das mulheres na construção da ciência compreende o entendimento do mundo do trabalho e das relações de gênero em uma sociedade patriarcal.

A inserção das mulheres no trabalho de pesquisa, na ciência e tecnologia é tímida, embora haja um crescimento, sobretudo a partir das lutas feministas nos anos de 1970. No entanto, de maneira geral, os êxitos e os reconhecimentos profissionais são escassos, como por exemplo, a sub-representação das mulheres no Prêmio Nobel (PRADO; FLEITH, 2012). Neste sentido, há indícios de que o avanço na carreira acadêmica é diferenciado para homens e mulheres: eles ocupam os postos hierárquicos mais que as mulheres, independente da área que atuam e da equidade numérica (SILVA; RIBEIRO, 2014).

Segundo os dados da Diretoria de Recursos Humanos da Fiocruz, no ano de 2015, havia 12.795 trabalhadores (as), sendo 51,1% da força de trabalho feminina, predominantemente branca1. Nesta instituição, elas são quase 60% na área de pesquisa. Do total de pesquisadores, 1.458 possuem doutorado, ou seja, 82%. Destes, 60% são mulheres e 40% homens. Ao longo da história, as mulheres entraram na Fiocruz em maior número que os homens. Tal fato pode ser explicado pelas vagas disponibilizadas nos concursos – ciências da saúde e biomédicas, áreas nas quais se concentram as mulheres. Elas são maioria nas coordenações de projetos de pesquisa (56%), bolsistas de produtividade do CNPq (53%), nas coordenações de projetos (56%) e de cursos de pós-graduações (GUIMARÃES et al., 2016). Ao nos depararmos com estes dados, percebemos que, neste contexto, elas são a maioria: um avanço para as mulheres no mundo do trabalho.

Há de consideramos que o trabalho como cientista envolve múltiplas dimensões que nem sempre aparecem no produto final: as longas horas de estudos, experimentos, dedicações, atribuições, as orientações de estudantes. Além, é claro, das exigências de publicações dos processos de pesquisa em revistas conceituadas e com fatores de impacto. Assim, a ênfase na produtividade acadêmica vem se acentuando, pois: “A ciência é um processo altamente dinâmico, em que as descobertas ocorrem ininterruptamente, sempre surgindo novos resultados e novas pesquisas, por isso, seus resultados são quase sempre provisórios e transitórios” (DROESCHER; SILVA, 2014, p.172). As autoras argumentam as pressões sofridas para publicações dos achados e também a necessidade de reconhecimento dos pesquisadores diante dos pares. O reconhecimento é fundante do prazer e da saúde no trabalho, como mostra Dejours (2004).

 

No entanto, a partir das produções de Kergoat (2002, p.49) sobre a divisão sexual do trabalho, verificamos que as relações sociais envolvem as dimensões de ser homem ou mulher na sociedade e são ao mesmo tempo, constructos sociais com: “tensão, oposição, antagonismo, em torno de um desafio, o do trabalho”. Isto permite a compreensão das múltiplas facetas das práticas sociais que desenvolvem homens e mulheres numa sociedade hierarquizada, na qual o trabalho masculino tem mais valor, quando comparado ao feminino. A autora traz ao debate, desde os anos de 1980, na França, o trabalho feminino gratuito feito na esfera reprodutiva, como o cuidado com os filhos, marido, casa, maternidade, limpeza. Se este é realizado sem remuneração, os postos de trabalho das mulheres no mercado de trabalho formal estão muitas vezes em condições precárias, com baixos salários e status.

Se trouxermos as análises da divisão sexual do trabalho para a compreensão do desenvolvimento de carreiras para as cientistas na Fiocruz, temos duas considerações. A primeira diz respeito ao avanço das mulheres no trabalho de pesquisa. Como vimos, elas são a maioria na carreira (pesquisa e ensino) e com doutorado. A segunda consideração a se fazer é sobre o trabalho que as mulheres desenvolvem na esfera da reprodução, como o cuidado familiar. O significado sociológico das relações sociais de sexo proporciona subsídios para compreender que o trabalho feminino transcende o assalariamento, pois o conceito de trabalho, a partir de então, passa a abranger o trabalho doméstico: “o que é geralmente designado no masculino como tempo livre é, para a maioria das mulheres, tempo de trabalho doméstico e familiar”. O trabalho é aqui entendido como produtor de vivência e inclui tanto o trabalho profissional como o trabalho doméstico, no qual as mulheres se dividem (HIRATA, 2003, p.26).

Ou seja, há indícios das dificuldades no processo de conciliação entre o trabalho produtivo e a família: filhos, maridos, pais e familiares. A organização da casa – mesmo para aquelas que contam com empregadas domésticas e cuidadoras – a educação dos filhos e o cuidado familiar parecem, na realidade brasileira, serem realizados sobremaneira pelas mulheres. Há a conjunção das jornadas excessivas da vida acadêmica e das reponsabilidades com cuidado reprodutivo (SILVA; RIBEIRO, 2014).

O retorno ao trabalho depois da maternidade é tido como um dos desafios das cientistas, pois: “O sistema brasileiro de ciência e tecnologia não inclui benefícios que auxiliem a cientista a conciliar carreira e família”. A recusa e o adiamento da maternidade ou a escolha por ser mãe, têm sido uma constante entre as cientistas (PRADO; FLEITH, 2012, p.21). Em funcionamento desde 1989, a creche da Fiocruz atende crianças de três meses a cinco anos, corroborando a ideia dos direitos das crianças à primeira etapa da educação básica e das mulheres às condições de trabalho. Em decorrência do aumento das vagas nos concursos públicos, a creche ampliou a demanda. Em 2015, a taxa de ocupação foi de 92%1.

 

Entender o trabalho das mulheres que fazem e pensam a ciência é necessário. Por meio deste entendimento, é possível verificar o modus operandi das relações de gênero, das múltiplas atividades desenvolvidas por elas, das conquistas e desafios. É também a oportunidade de “dar vozes” àquelas que estão na linha de frente da produção da ciência. Parafraseando a mineira Adélia Prado: “Mas o que sentimos escrevemos. Cumprimos a sina. Inauguramos linhagens, fundamos reinos”.

Referências

DEJOURS, Christopher. Addendum: da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. In: LANCMAN, S; SZNELWAR, L.I. Christofher Dejours: da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. Ed. Fiocruz, Brasília: Paralelo 15, 2004, p.38-78.

DROESCHER, F. D.; SILVA, E. L. O pesquisador e a produção científica. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 19, n. 1, p. 170–189, 2014.

GUIMARAES, M.C.S. Perfil do pesquisador. Observatório da Fiocruz em Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, 2016. Disponível em: http://observatorio.fiocruz.br/sites/default/files/perfil_do_pesquisador_versao_final_0.pdf.

HIRATA, H. Nova divisão sexual do trabalho? Um olhar voltado para a empresa e a sociedade. São Paulo; Boitempo, 2003.

KERGOAT, D. A relação social de sexo: da reprodução das relações sociais à sua subversão. Pro-Posições, v.13, n.1 (37), jan. abr, 2002, p.47-59.

PRADO, R. M.; FLEITH, D. DE S. Pesquisadoras brasileiras: conciliando talento, ciência e família. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 64, n. 2, p. 19–34, 2012.

SILVA, F. F.; RIBEIRO, P. R. C. Trajetórias de mulheres na ciência: “ser cientista” e “ser mulher”. Ciência & Educação (Bauru), v. 20, n. 2, p. 449–466, abr. 2014.

1 Diretoria de Recursos Humanos da Fundação Oswaldo Cruz. Boletim de Recursos Humanos 2015. Edição 2016.

 

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