Metodologias de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia: uma síntese

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 Camila Carneiro Dias Rigolin   Recentes contribuições dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia enfatizam a necessidade de ir além do laboratório e explorar novos espaços epistêmicos, mais difusos, híbridos e, às vezes, transitórios, nos quais o conhecimento científico também é construído." data-share-imageurl="http://observatorio.fiocruz.br/sites/default/files/1.jpg">

Por Camila Carneiro Dias Rigolin

Se as escolhas metodológicas de um pesquisador são aderentes aos programas teóricos e à natureza dos objetos de investigação, qualquer tentativa de síntese das metodologias empregadas no campo dos Estudos Sociais dos Ciência e Tecnologia deve levar em consideração três aspectos: o caráter de tentativa e a absoluta impossibilidade de realizar um levantamento exaustivo; o reconhecimento de que o campo já dispõe de corpo teórico que lhe confere características singulares e, segundo Jasanoff (2010) contornos disciplinares que devem ser assumidos e não diluídos, para garantir a sobrevivência e continuidade do campo e ratificar seu status quo perante outros; a necessidade de revisitar os programas teóricos e as agendas de investigação que nortearam o surgimento e a trajetória deste campo para mapear e contextualizar alternativas metodológicas.
 
Em consonância com estes princípios, o resgate de metodologias aplicadas nos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia remete a seus primórdios, quando Robert Merton define o conceito de comunidade científica e descreve um conjunto de postulados para explicar o funcionamento da ciência como instituição autônoma, que funciona segundo uma estrutura social normatizada.  Tais aspectos normativos ou padrões de conduta dos cientistas corresponderiam ao ethos científicos ou a seus imperativos institucionais: universalismo, comunalismo, ceticismo organizado, desinteresse (Merton, 1973).
 
A abordagem mertoniana foi pioneira  no detalhamento da estrutura social da ciência e contribuiu de forma definitiva para a institucionalização da Sociologia da Ciência como disciplina idependente da Filosofia e História da Ciência. Definiu o conceito de comunidade científica e muito contribuiu para o esclarecimento de sua natureza, o modo como esta se organiza e como a própria Ciência, com “C” maiúsculo, se constituiu e se perpetuou enquanto instituição social. São tributários dos conceitos mertonianos de comunidade científica os estudos métricos que estudam os aspectos quantitativos da ciência e da produção científica, a exemplo da Cientometria e da Bibliometria, bem como os estudos de construção de indicadores de Ciência e Tecnologia.
 
Merton, no entanto, não teria explorado o núcleo epistemológico da atividade científica e jamais investigado os processos de construção dos critérios de validez ou de justificação do conhecimento. Não teria transgredido a clivagem entre os aspectos cognitivos e sociais da atividade científica, herdada da tradição positivista e da Sociologia Funcionalista. Este questionamento viria décadas mais tarde, nos anos 1970, com o surgimento das chamadas abordagens “construtivistas”, posteriormente identificadas como “Segunda Onda” nos Estudos Sociais da Ciência (Jasanoff, 2003). Uma das pioneiras, o Programa Forte em Sociologia da Ciência, parte exatamente desta premissa: a Sociologia da Ciência pode e deve investigar e explicar o conteúdo e a natureza do conhecimento científico. David Bloor, um de seus proponentes, agrupou pesquisadores de diferentes orientações nas Ciências Sociais, na Universidade de Edimburgo, nas décadas de 1970 e 1980, entre os quais Barry Barnes, que também se tornaria um nome de destaque do referido programa.

O Programa Forte rejeita a hipótese de que o sociólogo estaria desprovido de teorias e métodos para lidar com a investigação da gênese do conhecimento científico, criticando  seus predecessores que se concentraram na investigação de fatores externos à ciência e/ou às suas normas institucionais. Com o objetivo de ressaltar a necessidade de investigação das práticas sociais atinentes ao núcleo epistemológico do fazer científico, Bloor apresenta quatro princípios metodológicos através dos quais a Sociologia da Ciência poderia investigar o contexto cognitivo dos fatos científicos, com rigor metodológico e legitimidade:

 

 

causalidade, que equivale ao interesse pelas condições que formam as crenças ou estados de conhecimento;
imparcialidade no que diz respeito à verdade e à falsidade, sucesso ou fracasso, racionalidade ou irracionalidade;
reflexividade (em relação à própria Sociologia);
simetria nos modos de explicação, uma vez que os padrões de explicação não podem ser diferentes seja na análise do erro ou do acerto, do sucesso ou do fracasso científico.

O princípio da simetria inspirou toda uma linha estudo das controvérsias científicas, em geral trabalhos de forte caráter historiográfico e tendência demonstrativa, nos quais há uma questão de partida comum: quando, como e porque emerge o consenso, além da diversidade de proposições iniciais? São expressões desta vertente metodológica os estudos de controvérsias científicas, o Programa Empírico do Relativismo e a proposta de investigação da construção social de artefatos tecnológicos consubstanciada no programa SCOT.
 
Os estudos de controvérsias tem no trabalho profícuo de Dorothy Nelkin, socióloga da Universidade de Cornell, um ponto de inflexão, sobretudo no que diz respeito à investigação e explicitação das relações entre expertise científica, poder público e decisão política, uma trilha posteriormente explorada por figuras de expressão no campo, como Sheila Jasanoff (Universidade de Harvard). Ao primeiro destes estudos, sobre controvérsias relativas à energia nuclear (lançado em 1971), seguiram-se mais de vinte livros, dentre eles clássicos como Controversy: Politics of Technical Decision (1979) e uma das obras pioneiras nos Estudos Sociais da Ciência a discutir a questão da propriedade intelectual: Selling Science: How the Press Covers Science and Technology (1987).
 
A virada epistemológica nos Estudos Sociais da Ciência também trouxe ao primeiro plano a investigação do empírico, da ciência como ela é, em contraponto à ciência idealizada. Esta é uma característica marcante dos diversos programas e propostas que emergem nos anos 1970 e 1980. Em um deles, o empirismo como alternativa programática, está na própria nomenclatura. O Programa Empírico do Relativismo (EPOR, no acrônimo em inglês), proposto na virada dos anos 1970-1980, por Harry Collins, também se tornou conhecido como Escola de Bath, instituição em que Collins atuava, na época.
 
Collins se inspira no princípio de simetria e de imparcialidade do Programa Forte e aplica o enfoque micro-sociológico para o estudo da negociação cotidiana dos fatos científicos, a observação das práticas não-codificadas dos cientistas, suas formas de reprodução e aprendizado, partindo do princípio de que os consensos científicos são negociados e que as condições das quais emerge a estabilidade são contingentes. Somente os dados observáveis são dignos de investigação. Os atores sociais são compreendidos através de suas ações observáveis e de seus posicionamentos públicos, rejeitando-se explicações construídas em torno de argumentos psicológicos ou mentalidades.
 
Collins realizou estudos empíricos tanto sobre as "Ciências Duras" (TEA-laser, detecção de ondas gravitacionais), quanto em áreas marginais, como a Parapsicologia. Nestes estudos, observou os núcleos de peritos (core sets) para determinar como eles lidam com o problema de flexibilidade interpretativa dos mecanismos de fechamento de uma controvérsia (closure mechanisms). A flexibilidade interpretativa corresponde à ideia de que os resultados de experiências científicas podem ser interpretados de diferentes maneiras, o que tem reflexo nos mecanismos de encerramento: os debates na ciência não são encerrados estritamente com base em evidências , já que esta é contestada. Portanto, é preciso buscar as explicações em fatores micro-sociológicos.
 
Também tributário do construtivismo social e do empirismo é o programa conhecido pelo seu acrônimo em inglês SCOT, correspondente à abreviação de Social Construction of Technology. Esta abordagem emerge na década de 1980, proposta por Trevor Pinch, sociólogo da ciência e Wiebe Bijker, sociólogo da tecnologia. Ambos empregam o princípio da simetria para o estudo da tecnologia, a partir da análise do sucesso e do fracasso na fabricação e estabilização dos artefatos, simetricamente. Um artefato tecnológico é um objeto que requer explicação, porque sua forma final e sua difusão se originam da aceitação e prévia negociação de uma série de atributos, pelos grupos sociais ditos “relevantes”.
 
A estabilização de um artefato não deriva de suas supostas qualidades “superiores”, mas expressa as demandas de grupos sociais que influenciaram seu processo de construção. As propostas da abordagem SCOT foram operacionalizadas metodologicamente em três estudos de caso, já considerados clássicos:

 i) o caso da construção da bicicleta;
ii) o caso da construção da baquelita;
iii) o caso da construção da lâmpada fluorescente (Bijker et al., 1987).

Em todos estes casos, os autores demonstram que o formato do artefato depende, sobretudo, dos diferentes significados que os grupos sociais relevantes atribuem a ele. Em tais estudos, circunscreveu-se a análise a um momento de controvérsia. Na sequência, rastreou-se a “fabricação” dos enunciados (ou das convicções), não permitindo que as explicações atuais interferissem ou imputassem qualquer viés à reconstituição das narrativas.
 
A primeira publicação de “A Vida de Laboratório”, em 1979, de Bruno Latour e Steve Woolgar introduziu a abordagem etnometodológica nos Estudos Sociais da Ciência.   A pesquisa de campo realizada por Bruno Latour entre 1975 e 1977 junto ao grupo de cientistas chefiado por Roger Guillemin, no Instituto Salk, na Califórnia, serviria de base para a redação do livro, em conjunto com Steve Woolgar. A abordagem etnográfica como perspectiva metodológica é o ponto de partida para a análise da ciência e dos cientistas. O caráter “microscópico e artesanal da pesquisa de campo” (Kropf e Ferreira, 1997, p.589) foi, e tem sido desde então, um dos aspectos mais celebrados e reproduzidos em estudos posteriores. A grande inovação da abordagem etnográfica foi a observação direta da prática científica em tempo real e in loco, a dita “Ciência em Ação”, título de um dos livros mais conhecidos de Latour, publicado pela primeira vez em 1987. Desde então, os estudos de laboratório se posicionaram como um lugar privilegiado para a compreensão prática científica.

 A Teoria Ator-Tede (ou ANT, no acrônimo em inglês para Actor-Ntework Theory), associada não só a Bruno Latour, mas também a Michel Callon e John Law, foi particularmente bem sucedida em difundir o legado construtivista dos Estudos Sociais da Ciência, levando-o em novas direções. No processo, a discussão do relativismo assumiu questões de ontologias, performatividade, práticas, normatividade e política, feminismo, pragmatismo, chegando aos estudos pós-colonias, entre outros temas. Figuras proeminentes nesses debates incluem, além de Callon, Latour e Law, Annemarie Mol, Susan Leigh Star, Donna Haraway, Andrew Pickering, Karen Barad, além de Karen Knorr-Cetina, criadora do sconceitos de arenas transepistêmicas e campos transcientíficos que designam  os espaços de interação entre cientistas e outros atores sociais que interferem na construção social do conhecimento. Curiosamente, a ANT difundiu-se como abordagem metodológica de relativa popularidade em outros campos que não os Estudos Sociais da Ciência. No Brasil, por exemplo, tem tido propagação nos Estudos Organizacionais e nos chamados Estudos Críticos em Administração, que vêem nesta teoria uma possibilidade de “destacar o aspecto processual e fluido  da organização, que não pode ser tomada como um fim ou um objeto estático” (Cavalcanti e Alcadipani, 2013, p.556).

No entanto, a popularidade não significa consenso. Quando Bruno Latour publicou a sua Teoria Ator-Rede, David Bloor discordou de seus fundamentos em artigo simplesmente chamdo de “Anti-Latour” (Bloor, 1999), argumentando ser um erro tratar humanos e não-humanos como dotados de agency. Latour, por sua vez, rebateu as críticas em um artigo de réplica, publicado em 1999, e também no livro "A Esperança de Pandora" (2001), onde expressa que a investigação dos fatos científicos não poderia ser resumida à  hipótese da “arte de fazer crer” ou da habilidade de gerar convencimento e produzir consenso. Disputas à parte, micro-sociologia, relativismo, empirismo, história, estudo de controvérsias e etnometodologia trouxeram aos Estudos Sociais da Ciência mais pontos de contato com a realidade da atividade científica e sua caracterização como prática cotidiana e como cultura. Estas abordagens teórico-metodológicas exploradas nos estudos anteriormente referidos, bem como em outros, contribuíram para gerar descrições mais acuradas e dinâmicas da produção do conhecimento científico e tecnológico, suas nuances e variadas relações com a sociedade, demonstrando a complexidade, hibridismo e relações intrincadas entre ação e conhecimento, teoria e prática.

Décadas após a virada epistemológica da Sociologa da Ciência, há quem argumente que a centralidade dos estudos empíricos, fortemente representados pelos “estudos de caso” (incluindo os estudos de laboratório, mas não só eles), teriam conduzido ao predomínio do “visível” e da observação de práticas como condição sine qua non para compreensão do processo de construção do conhecimento científico. Uma das consequências da predominância dos métodos de observação, que Garforth (2012) denomina de “retórica do testemunho”, estaria refletida na política científica contemporânea e sua insistência de que aquilo que realmente conta na ciência é o que pode ser visto, em termos de outputs e práticas de pesquisa.

A proliferação dos estudos de caso nos Estudos Sociais da Ciência é problematizada por Beaulieu, Scharnhorst e Wouters (2007) em artigo publicado na revista Science, Technology and Human Values. Os autores expressam alguma irritação com o número expressivo de estudos publicados nas páginas da revista que descrevem cuidadosamente dados empíricos de uma forma em que a teoria é acessada para provar ou demonstrar a validade de pontos de vista previamente estabelecidos e não o contrário.  Essa observação é ecoada na crítica de Jensen (2014), para quem os Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia tenderiam a ser dominados pelos estudos de casos que se tornam objeto de argumentação teórica, mas cujo significado e impacto para o estudos de política científica seriam insignificantes.
Em síntese, os autores demonstram insatisfação com a análise de material empírico e a instrumentalidade de sua elucidação conceitual, em parte dos trabalhos publicados no campo dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia. Chamam atenção para o “uso” de teorias de médio-alcance como pacotes metodológicos que supostamente capturam a diversidade e explicam a complexidade de qualquer coisa.

Finalmente, argumentam que os pesquisadores do campo devem concentrar mais energia na superação desta lacuna e na construção de “pontes” que permitam às teorias de médio-alcance gerar conclusões que extrapolem os limites dos estudos de caso e dialoguem com teorias mais abrangentes e problemáticas mais amplas, sem abrir mão da perspectiva de estudar a ciência de forma situada.
Recentes contribuições dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia enfatizam a necessidade de ir além do laboratório e explorar novos espaços epistêmicos, mais difusos, híbridos e, às vezes, transitórios, nos quais o conhecimento científico também é construído. Não se trata de refutar a herança do empirismo, nem das abordagens clássicas, mas de respeitá-las e compreendê-las para além das práticas canônicas e instrumentais, tanto para reconhecer a natureza crescentemente virtual e multisituada dos espaços de produção de conhecimento (Jensen, 2014). Pensar em outros espaços epistêmicos não é apenas questão de encontrar novas alternativas teórico-metodológicas, mas revisitar as já existentes, ampliando-lhe o significado (Garforth, 2012).

Referências

 
BEAULIEU, Anne; Scharnhorst, Andrea; WOUTERS Paul. Not Another Case Study: A Middle-range Interrogation of Ethnographic Case Studies in the Exploration of E-science. Science, Technology & Human Values, 32 (6): 672–93, 2007
 
Bijker, WIEBE; Hughes, THOMAS; Pinch, TREVOR. The social construction of technological systems – New directions in the sociology and history of technology. Cambridge: MIT, 1987.
 
BLOOR, DAVID. Conhecimento e Imaginário Social. Tradução de Marcelo do Amaral Penna–Forte. São Paulo: Editora Unesp, 2009, 300 p.
 
CAVALCANTI, M. F. R. ; ALCADIPANI, Rafael. Organizações como processos e Teoria Ator Rede: a contribuição de John Law. Cadernos EBAPE.BR (FGV), v. 11, p. 556-568, 2013.
 
GARFORTH, Lisa. In/Visibilities of Research: Seeing and Knowing in STS, Science, Technology, & Human Values, 37(2), 264-285, 2012.
JASANOFF, Sheila. Breaking the Waves in Science Studies, Social Studies of Science, 33,3, 389-400, 2003.
 
JASANOFF, Sheila.‘‘A Field of Its Own: The Emergence of Science and TechnologyStudies.’’ In: FROEDMAN, Robert; KLEIN, Julie Thompson; MILTCHAM, Carl (eds), The Oxford Handbook of Interdisciplinarity, p. 191–206. Oxford, England: Oxford University Press, 2010.
 
JENSEN, Casper Brunn. Continuous Variations: The Conceptual and the Empirical in STS, Science Technology Human Values, vol. 39, n. 2, p.192-213 , March 2014.
 
KROPF, S. P.; FERREIRA; L. O. A prática da Ciência: uma etnografia no laboratório. História, Ciências, Saúde  – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 3, p. 589-597, nov. 1997.
 
LATOUR, BRUNO. A Esperança de Pandora. São Paulo: EDUSC, 2001.
 
MERTON, Robert King. The Sociology of Science, University of Chicago Press, 1973.
 
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