Impacto Real e Imediato?

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Fábio Castro Gouveia     Medir com que força esse novo conhecimento impulsiona diversas outras ações nos mais diferentes campos. Principalmente, estar ciente disso, o mais brevemente possível, para poder demonstrar que o investimento feito teve retorno. Seria realmente incrível se esses desejos fossem facilmente realizáveis." data-share-imageurl="http://observatorio.fiocruz.br/sites/default/files/1_cha.jpg">

Por  Fábio Castro Gouveia

Saber o efeito de um resultado de pesquisa para a humanidade. Medir com que força esse novo conhecimento impulsiona diversas outras ações nos mais diferentes campos. Principalmente, estar ciente disso, o mais brevemente possível, para poder demonstrar que o investimento feito teve retorno. Seria realmente incrível se esses desejos fossem facilmente realizáveis.
Contudo, a ideia de se medir o impacto da ciência é parte de uma busca por uma completude impossível de ser atendida. Estaremos sempre diante de métricas que registram ações e etapas, e cada uma delas poderá ser usada como uma aproximação para se tentar medir esse “impacto”. Nada fácil, para o cientometrista de plantão consultado, de traduzir dos inúmeros indicadores, o significado para gestores ou financiadores ávidos por respostas definitivas. E o cenário é cada vez mais complexo, com uma surpreendente profusão de dados e indicadores em um eterno debate quanto à mensuração do impacto da ciência.

Podemos entender que temos diferentes tipos de objetos ou conjuntos dos quais podemos levantar dados. E o “átomo” mais corrente da produção científica é o artigo científico nos seus mais variados formatos: artigos em periódicos, textos de conferências, revisões, capítulos de livro, etc. Neles vem sendo largamente aplicada a contagem de citações. Se, por um lado, ela informa um interesse de alguma ordem na produção, por outro, Garfield (1955) já deixava claro que, não necessariamente, isso seria positivo. Entendia, sim, que o “diálogo” das citações necessitava ser ouvido para um correto entendimento da ciência expressa nos artigos publicados.

Mais recentemente, Bossy (1995) viu na internet uma oportunidade de se observar – numa alusão ao livro de Bruno Latour – a “ciência em ação”. Essa, aconteceria em cada troca no meio acelerado das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), onde diferentemente do que se pensa, todas as trocas são registradas mas, não necessariamente, armazenadas. Complementando essa linha histórica (nada exaustiva, claro), temos o Manifesto Altmétrico de Priem e colaboradores (2010), onde se propôs o uso de novas métricas como uma possível resposta à crise dos longos tempos no processo de publicação e seus indicadores nada ágeis, incompatíveis com o momento em que vivemos. Essas “novas” métricas, assim chamadas alternativas (altmétricas), foram definidas como não sendo webometria ou cibermetria.
Entendo que a posição, expressa pelo Manifesto, é uma defesa de nomenclatura e de campo. Já para mim é claro, conforme defini em Gouveia (2013), que a Altmetria se configura no uso de dados cibermétricos e webométricos para estudos cientométricos (ver Figura 1). Nesta concepção, vou ao encontro do delineado por Bossy (1995), que previu estas possibilidades e chamou de – Netometrics – este grande campo de métricas da internet, com potencial aplicação na observação dos processos da ciência.

Figura 1: Interfaces entre os campos da webometria, webmetria, altmetria e cibermetria com a bibliometria, cientometria e informetria
 Fonte: Gouveia (2013).

A altmetria se fez possível a partir da revolução na consolidação de dados de identificadores consistentes para artigos, pesquisadores e revistas (estes já há muito existentes). Ao mesmo tempo, assim como na bibliometria – onde o número de artigos não citados numa janela de 5 (cinco) anos nas bases de citação pode oscilar de 12%, para áreas de ciências médicas, até 83%, nas de humanas – na altmetria temos flutuações. Para a Altmetric em média apenas 20-25% dos trabalhos receberão hoje alguma atenção online, com valores entre 30-35% para a área biomédica.
E é interessante observar que indicadores como o índice-h – um indicador bibliométrico – apresentam uma maior robustez por ser de difícil acumulação, e, portanto, mais lentos e menos manipuláveis. Já na altmetria, com suas métricas que podem atingir, em pouco tempo, números impressionantes, lida-se com dados potencialmente mais manipuláveis, porém, por sua transparência, com ações fraudulentas de grande ordem facilmente detectáveis.

Mas a transformação que vemos – ao longo do tempo e com o olhar para essas altmétricas oriundas, principalmente, de mídias sociais – se dá na incorporação de novos atores na avaliação dos impactos da ciência. Ampliamos das métricas dos pares para métricas que levam em consideração a repercussão midiática e de mídias sociais. Nestas, até mesmo o cidadão comum informatizado pode participar e dar o seu “joinha” naquele release de imprensa sobre o que foi descoberto em laboratório. Se temos com isso uma verdadeira inclusão ou apenas uma falsa repercussão do que se produz, mal traduzido por exageros das perspectivas apontadas para o futuro, ou mesmo na midiatização do projeto de pesquisa original, só poderemos saber em estudos ao longo do tempo. O mais provável é que encontremos uma miríade de influências.

A tentativa de mensuração, em busca de respostas à sociedade, do impacto da ciência que ela financia, impacta também nas escolhas e formas de divulgação dos resultados pelos pesquisadores. E se o mundo da academia não é isento, nem mesmo um ambiente de seres desprovidos de interesses, talvez se entenda finalmente, que a hora de falar à sociedade sobre ciência chegou.
Mas, além do diálogo com a sociedade, é na busca por um melhor entendimento e precisão que necessitamos nos envolver. Questionar fontes, entender seus desvios e suas tendências, saber, principalmente, contextualizar e gerar dados, nos quais tenhamos seus valores nominais de origem guardados, porém, que sejam tratados já com seus valores reais. Esse é o grande desafio ao se propor medir os impactos científicos.

Dizer que a produção de artigos científicos no país ou numa instituição está crescendo não é o suficiente. Essa é uma tendência mundial e a estagnação seria, por si só, um desastre. Ver saltos na produção pode também ser resultado, como ocorreu de fato com a brasileira na base da Web of Science, da ampliação da cobertura de revistas. Mudanças de foco e inclusão de campos de pesquisa menos prolíficos no intercâmbio de citações podem mudar médias nas análises de impacto tradicionais. A inclusão de temas relativos à saúde pública e medicina tropical entre os de tendência a grande debate, diante da emergência e re-emergência de doenças, também muda este panorama. De certo, o que temos é um cenário onde há um número excessivo de variáveis soltas e não devemos considerar dura e friamente os números, obtidos de maneira ampla, para o que se produz ou publica num país ou instituição.

Precisamos observar, fazer recortes, mas, ao mesmo tempo, ver o todo. Cientistas que trabalham com algoritmos para visualização de dados já chamam a atenção para isso. Diante da revolução dos dados acessíveis online, do constante monitoramento de tudo o que é dito e produzido, do mundo do Big Data no qual vivemos, precisamos de um novo instrumento. Para além dos microscópios, que nos permitiram ver de perto detalhes do nosso mundo, é já o momento de se conceber “macroscópios”. Independentemente do que se possa medir, o impacto da ciência é amplo e irrestrito. Apenas necessitamos do macroscópio adequado para poder apreciá-lo.
 

Conteúdo Barra lateral: 
Using Almetrics for Contextualised Mapping of Societal Impact: from Hits to Networks
A altmetria e a interface entre a ciência e a sociedade
Observaciones sobre los indicadores de impacto social
Aproximaciones a la evaluación del impacto social de la ciencia, la tecnología y la innovación
Indicadores bibliométricos e econométricos para a avaliação de instituições científicas
RTD Evaluation Toolbox: assessing the socio-economic impact of RTD-policies
The Metric Tide: report of the Independent Review of the Role of Metrics in Research Assessment and Management
Altmetrics in Evolution: defining and redefining the ontology of article-level metrics
Indicadores bibliométricos e cientométricos em CT&I: apontamentos históricos, metodológicos e tendências de aplicação
Indicadores bibliométricos da produção científica brasileira: uma análise a partir da base Pascal
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