Lugar de mulher é na ciência: a experiência do blog Cientistas Feministas

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Por Cientistas Feministas*  Este é o relato de experiência de um blog de ciências escrito exclusivamente por mulheres. 

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Por Cientistas Feministas*

Mulheres na ciência

Segundo o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), cresce o número de mulheres nas áreas onde estão menos representadas: exatas, sociais aplicadas, artes, engenharias e computação. Todavia, esse aumento praticamente não é superior ao dos homens no mesmo período para a mesma área. Por exemplo, entre 2001 e 2015 o número de bolsas concedidas em exatas aumentou 276% para mulheres e, para homens, 257%. Isto significa que, apesar do aumento em número, as mulheres continuam com baixa representatividade, visto que, em 2014, apenas 35% das bolsas de exatas foram destinadas a mulheres. Apesar das adversidades, o número de mulheres é representativo no começo da carreira. Em certas áreas, elas são maioria nos cursos de graduação e receberam, em 2014, 59% das bolsas de iniciação científica. Todavia, só 36% das bolsas de produtividade são de mulheres, indicando grandes dificuldades para que elas sigam na carreira científica.

Cabe destacar ainda que num país racista e de oportunidades desiguais como o Brasil, mulheres negras são ainda menos representadas nas universidades. As mulheres brancas representavam 59% do total de mulheres bolsistas no país em janeiro de 2015 e as negras (pardas e pretas) 26,8%. Entretanto, a participação das pretas é ainda menor (4,8%). As iniciativas e políticas públicas para que mais mulheres ocupem a universidade devem, portanto, levar em consideração o racismo.

 

Por que divulgação científica?

 

Diante desse quadro, em 2015, a bióloga Carolina Sapienza Bianchi decidiu criar um blog de divulgação científica, escrito exclusivamente por mulheres. Mas por que divulgação científica?

A produção do conhecimento científico não é feita de maneira democrática. Há diversos mecanismos de seleção que definem quem serão os produtores desse conhecimento, como condições econômicas, raça e gênero. Por exemplo, o acesso à universidade é mais difícil para uma mulher negra de um país como o Brasil do que para um homem branco de um país como a Alemanha. Isso faz com que a produção científica, no mundo, esteja concentrada em países ricos e nas mãos de homens brancos. Segundo dados levantados pela química Denise Alves Fungaro, dos 6 mil doutores titulados a cada ano no Brasil, somente 1% é negro e menos de 1% das pesquisas focalizam assuntos de interesse dessa população (Oliveira, 2010).

Parte importante desse conhecimento científico é produzida com financiamento estatal, ou seja, a sociedade paga pela produção da ciência. Porém, uma vez produzido, esse conhecimento é pouco difundido para a sociedade que o financiou. No geral, os resultados das pesquisas são publicados em jornais especializados, que circulam quase exclusivamente entre os próprios pesquisadores de cada área. Além disso, esses textos são escritos em linguagem técnica, frequentemente incompreensível para pesquisadores de outras áreas e para o público não-especializado.

Acreditamos que esse sistema baseado em exclusão deva ser criticado e combatido. A divulgação científica é uma arma possível nessa luta. Ao escrever textos em linguagem acessível, pretendemos contribuir para uma disseminação mais ampla dos resultados de pesquisas recentes. A internet também é um veículo que auxilia nessa difusão, pois não é necessário acessar bases de dados pagas para se informar sobre pesquisas científicas atuais. Dados referentes a 2015, mostram que 58% da população brasileira tem acesso à internet (Portal Brasil, 2016), o que a torna uma ótima ferramenta para divulgação científica no país. A maioria dos blogs, sites e canais que divulgam ciência são em inglês, o que constitui uma barreira econômica importante à informação.

A população brasileira tem bastante interesse em ciência e tecnologia (Percepção pública da ciência e tecnologia, 2015). Porém, o acesso a informações sobre esses temas ainda é limitado, sendo que 51% dos entrevistados responderam que “nunca ou quase nunca” leem sobre o assunto na internet ou nas redes sociais. Assim, nos parece urgente criar, na internet, um canal de comunicação científica de qualidade,

Mostrar que a ciência não é um bicho de sete cabeças, que é um conhecimento que pode (e deveria) ser acessível a todos, também incentiva crianças e jovens a seguirem a carreira acadêmica.

 

Um blog escrito exclusivamente por mulheres

 

Como discutido anteriormente, as mulheres ainda enfrentam inúmeras dificuldades quando decidem seguir a carreira científica. Assim, um blog de divulgação científica escrito por mulheres contribui para que elas tenham mais um lugar de fala possível dentro do campo científico. Além disso, pode ser um fator importante para que crianças e jovens - em especial, as meninas - vejam que é possível que mulheres tenham carreiras científicas bem-sucedidas e se sintam incentivadas a seguir esse caminho profissional.

A desigualdade de gênero também está presente no meio de divulgação científica. Essa disparidade é resultado de uma combinação de fatores. Os meios de comunicação, por exemplo, preferem convidar homens a mulheres (Von Roten, 2010). Em uma reunião, intitulada Solutions Summit for Women in Science Writing, que abordou causas da desproporção de homens e mulheres na divulgação científica, mulheres relataram que não são levadas a sério e não são consideradas por seus pares como inteligentes o bastante. Dessa forma, elas têm menos chances de serem convidadas a escrever matérias sobre ciência e tecnologia.

Por todas essas razões, sentimos a necessidade de criar um blog de divulgação científica escrito exclusivamente por mulheres. Até o momento, há sete blogs/sites brasileiros que promovem a importância das mulheres na ciência e divulgam ciência para o público. O blog Cientistas Feministas é o único que abrange diferentes áreas com conteúdo próprio escrito exclusivamente por mulheres.

À primeira chamada para colaboradoras, que se restringia às áreas de exatas e ciências da natureza, foi também incorporada uma chamada para a área de ciências humanas e sociais. Isso porque essa área (fortemente composta por mulheres) é, muitas vezes, excluída do status de “ciência” do qual gozam as outras disciplinas. Decidimos que esse preconceito também deveria ser combatido. Assim, o blog nasceu com colunas representando todas as áreas do conhecimento.

 

O blog Cientistas Feministas

 

O blog Cientistas Feministas abrange diferentes áreas do conhecimento: ciências da saúde, ciências humanas e sociais, ciências naturais, exatas, engenharias e tecnologias. Ele está organizado por colunas sobre áreas específicas. Nesse espaço são divulgadas pesquisas relevantes, nacionais e internacionais, com linguagem acessível ao público em geral. Há também uma coluna, ‘Em off: Feminismo’, que discute temas mais gerais sobre o machismo no meio científico e sobre os feminismos.
Atualmente com 35 colaboradoras, o compromisso com a divulgação científica e a militância feminista alimentam cinco colunas semanais. A distribuição das cientistas vinculadas ao projeto entre áreas diversas da ciência, bem como a distribuição geográfica do grupo (mapa 1), contribuem para um variado apanhado de assuntos e debates que constroem as publicações de divulgação científica do blog.

 

Mapa 1 – localização geográfica das colaboradoras ativas do blog                                               

O grupo que constrói o blog possui mecanismos de comunicação que visam abranger as diferentes localidades das colaboradoras, sendo a própria internet uma ferramenta essencial para tal. Essa atuação em rede permite o diálogo entre as cientistas das diferentes áreas do conhecimento, que trabalham de forma colaborativa e engajada na promoção da equidade de gênero na ciência e na sociedade. Reconhecendo a potencialidade dessa rede já consolidada, e considerando nossa presença em diferentes universidades, temos o poder de difundir nossas discussões para os espaços onde atuamos.

O blog, hospedado na plataforma Wordpress® desde junho de 2015, acumula quase 23 mil visualizações nas 180 postagens realizadas até a presente data. O crescimento do número de visualizações e seguidores do blog, ao longo desses quase dois anos, parece apontar que nosso objetivo de aproximar a ciência da população tem sido alcançado.

 

Mapa 2 – distribuição das visualizações das postagens do blog

Já na rede social Facebook®, dentre as mais de 7 mil curtidas na página do blog, 89% são de mulheres, majoritariamente na faixa dos 18 aos 34 anos.
Assim, nossa experiência nesses quase dois anos de atuação no blog e nas redes sociais mostra que há um interesse da população brasileira e, em especial, de mulheres, em ler sobre conhecimento científico e em participar de discussões sobre o lugar das mulheres no meio acadêmico. Por isso, a nossa principal expectativa com o futuro do blog é, de maneira didática e acessível, continuar divulgando resultados de pesquisas recentes, atingindo um número cada vez maior de pessoas, e, assim, contribuir para a democratização da produção do conhecimento científico no Brasil e para a crítica dos obstáculos que as mulheres cientistas enfrentam cotidianamente em suas carreiras.

 

Acesse nosso blog https://cientistasfeministas.wordpress.com/ e nos siga nas redes sociais

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Twitter https://twitter.com/cientistasXX

 

Referências

 

Bian, L.; Leslie, S.J.; Cimpian, A. (2007). Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests. Science.355: 389-391.

Oliveira, Cida de. A cor da ciência. Disponível em:

http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/53/a-cor-da-ciencia

Percepção pública da ciência e tecnologia 2015 - Ciência e tecnologia no olhar dos brasileiros. Sumário executivo. Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2015.

Portal Brasil. Pesquisa revela que mais de 100 milhões de brasileiros acessam a internet. Disponível em: http://www.brasil.gov.br/ciencia-e-tecnologia/2016/09/pesquisa-revela-que-mais-de-100-milhoes-de-brasileiros-acessam-a-internet

UNESCO. UNESCO Science Report: towards 2030 – Executive Summary. Disponível em
http://unesdoc.unesco.org/images/0023/002354/235407por.pdf

Von Roten, F. C (2010). Gender Differences in Scientists’ Public Outreach and Engagement Activities. Science Communication, pp. 52 – 75.

Isabel Tavares; Maria Lúcia de Santana Braga; Betina Stefanello Lima. Análise sobre a participação de negras e negros no sistema científico. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

http://www.cnpq.br/documents/10157/1f95db49-f382-4e22-9df7-933608de9e8d

*CASSETTARI, Bruna de Oliveira; DIAS PAES, Mariana Armond; FERREIRA, Laís Vignati; FOGAÇA, Mariana Dutra; GOES, Emanuelle Aduni; MARTINS, Marcela Rebello, PITTA LIMA, Mariana Ramos; SEIFFERT, Andreya; SOARES BALESTERO, Gabriela; SOUZA, Beatriz de; TANCIONI, Isabelle; TARGHETTA, Bianca Lucchesi; OLIVEIRA, Polyanna.

Em Destaque: 
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