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Contribuições científicas e tecnológicas no caso do zika vírus nos países da América Latina e Caribe são tema de estudo

01/10/2018
Por: 
Foto de maira.baracho
Maira Baracho

Fruto de uma parceria entre o Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fiocruz e o Instituto René Rachou / Fiocruz Minas, o estudo ‘Contribuições científicas e tecnológicas em epidemias: o caso do zika vírus nos países da América Latina e Caribe’ buscou entender a importância dos países latino-americanos e suas colaborações para o enfrentamento à epidemia. 

Coordenadora do estudo e membro do Comitê Gestor do Observatório em Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, a pesquisadora da Fiocruz Bruna Fonseca compartilhou com a equipe do Portal alguns dos resultados da pesquisa, que será publicada em breve, e apontou ainda a relevância do Brasil e também da Fiocruz diante da epidemia. 

Desenvolvido ao longo de oito meses, o estudo coordenado por Bruna, contou também com os pesquisadores Alice Machado (Instituto René Rachou - Fiocruz Minas / Escritório de Inovação - CDTS), Camila Guindalini (CDTS), Fernanda Fonseca (CDTS) e Marcus Vinícius Silva (Casa de Oswaldo Cruz).

Portal Observatório - O estudo pretendeu responder qual era a contribuição científica e tecnológica da América Latina diante da epidemia de Zika. Como isso foi feito? 

Bruna Fonseca - Para responder a essa pergunta, olhamos para duas dimensões: publicações científicas, indicadores clássicos de geração de conhecimento científico, e patentes, que refletiam não só a geração de conhecimento, mas também um potencial de geração de produtos. 

Três perguntas orientaram o estudo. Qual a contribuição dos países da América Latina e Caribe na produção de conhecimento científico e tecnológico em Zika? Qual é a cobertura das bases internacionais em relação às publicações em Zika que são indexadas em bases regionais? E de que maneira os países latino-americanos e caribenhos contribuíram para a geração de desenvolvimento tecnológico em Zika? 

Para a análise das publicações científicas, coletamos dados em três bases internacionais (Pubmed, Scopus e Web of Science) e duas regionais (SciELO e Lilacs). 

Observando uma linha do tempo, percebemos que os países latino-americanos e caribenhos acompanharam a tendência do restante do mundo que, entre 2015 e 2016, aumentou progressivamente a publicação científica sobre Zika. Quando separamos os países de acordo com o número de publicações percebemos que, enquanto conjunto, os países latino-americanos e caribenhos estão no segundo lugar em geração de conhecimento sobre o tema, sendo o Brasil o que mais se destaca. 

Ao avaliar a cobertura, ou seja, a sobreposição entre bases regionais e internacionais, vimos que quase três quartos do que está publicado em bases regionais também está presente nas bases internacionais. 

 Observatório - O estudo também considerou redes de colaboração científica. Como isso foi feito? 

 Bruna - As redes de colaboração foram construídas com base na coautoria dos artigos. Por exemplo, quando um pesquisador afiliado a uma instituição localizada na América Latina ou Caribe colabora internacionalmente, estabelecemos uma relação entre os países. Na nossa análise, percebemos que existe muita colaboração com os Estados Unidos e com o Reino Unido, mas pouca colaboração entre países latino-americanos e caribenhos. 

 Observatório - Por que isso acontece? 

 Bruna - Isso pode ter relação com a infraestrutura tecnológica presente nos países mais desenvolvidos e também com o maior financiamento recebido por esses países, o que acaba atraindo parcerias. Entretanto, consideramos que um dos pontos importantes dessa análise é a medida do que chamamos de centralidade de intermediação. 

 Observatório - O que isso significa? 

 As medidas de centralidade em geral dizem respeito ao acesso ao conhecimento, partindo do princípio de que se um país colabora com outros países, ele tem um maior potencial inovador porque está combinando diferentes informações e conhecimentos a partir dos parceiros. Não se trata de uma medida de produtividade, que considera o número de publicações como indicador de que aquela instituição ou país é mais importante.

 A centralidade de intermediação, em nosso estudo, mede o quanto um país está posicionado como intermediário entre outros países. Neste caso, o quanto um país está funcionando como intermediador do fluxo de informação sobre Zika. 

Observatório - E como está o Brasil neste contexto? 

Bruna -  O Brasil é o terceiro país mais central da rede global de pesquisa sobre Zika, estando atrás apenas dos Estados Unidos e França.

Observatório - E no que diz respeito às patentes, também analisadas pelo estudo? 

Bruna - Recuperamos 274 famílias de patentes e percebemos que a contribuição dos países latino-americanos e caribenhos é menor: destas, aproximadamente de 5% foram depositadas por inventores que se declaram afiliados a instituições latino-americanas. Todas as quatorze patentes identificadas foram depositadas pelo Brasil e a maioria delas trata de dispositivos para captura de mosquitos.

Observatório - O que poderia justificar essa diferença regional? 

Bruna - Primeiro é preciso entender que os processos de produção de conhecimento científico e de desenvolvimento tecnológico são muito diferentes e que existe uma série de fatores que podem influenciar um menor número de depósitos de patentes por parte dos países latino-americanos e caribenhos. 

No Brasil, por exemplo, não temos uma cultura bem estabelecida de depósito de patentes, muitas vezes o próprio pesquisador não sabe que a sua pesquisa tem potencial de se transformar em uma patente. Além disso, a publicação científica ainda é um importante indicador de produtividade utilizado para avaliar o pesquisador. 

Observatório - Diante de todos os resultados e análises, como você apontaria o papel do Brasil e da Fiocruz neste cenário? 

Bruna - Como importantes geradores de conhecimento científico em Zika. A Fiocruz foi a instituição que mais publicou artigos científicos no mundo sobre esse tema. O Brasil foi o segundo país em número de publicações e o terceiro mais central na rede de pesquisa, o que pode ser atribuído ao investimento que feito em ciência e tecnologia no país. Isso foi crucial para o desempenho brasileiro na resposta à epidemia. Uma das mensagens desse estudo é que o investimento em infraestrutura, científica e tecnológica e em recursos humanos para ciência permitem que um país seja capaz de responder adequadamente a epidemias de proporções globais. 

Observatório - Vocês pretendem aprofundar esse estudo?

Bruna - Sim, as análises pontuadas aqui e outras delas também inéditas farão parte de um manuscrito que está em fase de redação e será submetido ainda esse ano para publicação. Em breve, esse estudo completo será disponibilizado no Portal do Observatório.

Algumas das análises comentadas ao longo da entrevista e o posicionamento da Fiocruz neste cenário podem ser visualizadas na sessão de Estudos

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Imagem do mapa do Planeta Terra em preto e branco, com linhas de várias cores e larguras ligando os países da América Latina.