Redes de Pesquisa em Leishmaniose

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Por que avaliar essa rede?

Inserida no rol de doenças consideradas as mais negligenciadas dentre as doenças negligenciadas (Tipo III) por incidirem exclusiva ou majoritariamente nas populações mais pobres de países em desenvolvimento (WHO,2012), a distribuição geográfica das leishmanioses no mundo tem crescido nas duas últimas décadas bem como o número de casos reportados. Os fatores de risco em grande parte relacionam-se aos determinantes sociais da saúde: pobreza e exclusão social. Outros fatores de risco que também ampliam as chances de disseminação da doença para novas áreas são mudanças climáticas e ambientais, migração e indivíduos que possuem sistema imunológico comprometido.
Além de ser um país endêmico, o Brasil é reconhecido como um dos principais produtores de conhecimento científico sobre Leishmanioses tendo a Fiocruz um importante papel neste contexto. De acordo com Sampaio et al (2015), a Fiocruz tem envidado esforços para construir um programa de pesquisa translacional voltado a identificação de novas drogas e combinação de drogas existentes para tratamento das Leishmanioses.
Nesta perspectiva o mapeamento da produção científica em Leishmanioses, voltado à identificação de redes de colaborações entre países, pesquisadores, organizações e áreas temáticas, pode subsidiar o delineamento de uma agenda institucional voltada a coordenação e integração de conhecimentos disponíveis e ao preenchimento de lacunas para que avanços científicos se traduzam em avanços tecnológicos e inovações mais seguras e efetivas.
 

Como foi feita a análise?

Os dados que embasam o estudo foram obtidos em março de 2016 na base de dados Web of Science - WoS. A base WoS foi escolhida por ter alta representatividade na área da saúde, fornecer informações sobre filiação institucional dos autores, permitir a exportação dos dados em formato compatível para importação em softwares de análise bibliométrica e ser amplamente utilizada para geração de indicadores internacionais de produção científica. Ressalta-se que foram considerados apenas artigos publicados em periódicos (articles/articles in press).
A busca recuperou 11.692 artigos cujos 34.600 autores estavam filiados a organizações de 130 países, de acordo com a base WoS. Do total de artigos encontrados, 2.867 tinham ao menos um autor filiado a instituições brasileiras. Destes, 1.022 artigos contavam com ao menos um autor vinculado à Fiocruz, o que significa quase 36% da produção nacional e 10% da produção mundial. Esses números demonstram a importância da instituição na pesquisa sobre a doença. Do número total de pesquisadores, foi feito recorte para os autores com 3 ou mais publicações totalizando 5.907 pesquisadores. A estes pesquisadores foram adicionados atributos de país e organização onde mais publicaram utilizando-se critérios de filiação dos autores.  Destes, com três ou mais publicações, 1.579 declararam ser filiados a instituições sediadas no Brasil.
Adicionalmente, o estudo também utilizou áreas temáticas do MeSH de cada publicação, como outra forma de classificar os autores. O uso de termos MeSH foi considerada uma estratégia adequada por evitar heterogeneidades causadas por diferentes classificações de artigos em cada base de dados (LEYDESDORFF; OPTHOF, 2013).
 

Principais resultados

Colaboração Internacional
A primeira análise teve o foco na colaboração entre países com o intuito de entender o nível de colaboração internacional e quais países se mostram mais proeminentes. Para tal, em cada grupo foram avaliados os nós centrais e o nível de colaboração com os demais países que compõem a rede.

FIGURA 1 - Rede de colaborações entre países

Fonte: Elaboração própria

Na figura 1, cada nó representa um grupo de pesquisadores que declararam ser filiados a instituições com sede nos países descritos no grafo. O tamanho do nó está relacionado ao número de colaborações de determinado país. Nesse sentido, cabe mencionar que apesar de o Brasil ser o país com maior número de publicações, os EUA, o Reino Unido e a França possuem o mesmo número de colaborações ou mais que o Brasil. Isto pode indicar que pesquisadores tendem a privilegiar coautorias com colegas de instituições sediadas nestes países (ADAMS, 2013), onde estão localizadas as universidades e centros de pesquisas mais importantes no mundo. Estas instituições formam recursos humanos em termos internacionais, o que lhes confere alta capacidade da colaboração com ex-alunos, geralmente pesquisadores de instituições relevantes em seus países.
A espessura das linhas representa o número de colaborações entre os países conectados. Nesta perspectiva, verifica-se que o Brasil e os EUA possuem o maior número de colaborações estabelecidas, seguidos por colaborações entre Suíça e Reino Unido. Utilizando algoritmo para agrupar os nós com maior relação entre eles, foram encontrados três grandes grupos. Apresentados em azul no canto superior direito, verde ao centro e rosa dividido entre a parte inferior esquerda e superior. A despeito de estarem visualmente próximos, não se observa coesão entre os países nos diferentes grandes grupos, o que pode indicar fragmentação da pesquisa.
Em azul a França aparece como principal colaborador junto a países de língua francesa ou que possuem laços de colonização ou forte intercâmbio cultural com este país. Neste grupo também se encontram Espanha, Portugal, Grécia e alguns países do Leste Europeu. Em rosa o grupo da parte inferior tem o Reino Unido, Alemanha, Suíça, Bélgica e Índia como principais países colaboradores. As colaborações deste grupo, na sua maioria, ocorrem com países do sudeste asiático, centro sul da África e países nórdicos além da Austrália e Rússia. No mesmo grupo rosa na parte superior a Alemanha é o principal colaborador, com relações estabelecidas principalmente com países euroasiáticos e do oriente médio, mas também com países caribenhos e africanos. Ao centro no grupo verde estão os EUA, Brasil e Canada como os principais colaboradores, se relacionando parte com países localizados na América Latina, bacia do Mediterrâneo e parte com países da América Central, África, oriente médio e Ásia. Neste grupo também se encontra o Canadá relacionado fortemente aos EUA.
Os países com maior número de colaborações podem ser categorizados em países endêmicos de renda média, que possuem infraestrutura de pesquisa: Brasil (renda média alta) e Índia (renda média baixa); países de renda alta considerados endêmicos pela OMS por terem casos autóctones em áreas específicas de seus territórios: França e Espanha; e países de renda alta livres da doença tidos como principais financiadores de P&D para doenças negligenciadas de acordo com o Policy Cures (2014), dentre os quais estão os Estados Unidos e Reino Unido.
 
Colaboração Institucional no Brasil

FIGURA 2 - Visão geral dos grupos a partir das organizações onde os pesquisadores brasileiros com maior número de publicações estão associados segundo a sua produção científica


Fonte: Elaboração própria a partir da WoS, 2016
 
A figura 2 apresenta as instituições brasileiras de filiação dos pesquisadores com três ou mais publicações. A identificação das instituições e das relações estabelecidas entre elas por região do país viabiliza entender a estrutura e conexões destas nas redes nacionais e regionais de produção do conhecimento sobre leishmanioses.
Uma limitação relacionada à identificação das instituições sediadas no Brasil é a variedade de grafias informadas pelos autores dos artigos, aspecto minimizado no caso da Fiocruz por ter sido criado um dicionário com o intuito de reunir os diferentes nomes das unidades regionais e variações do nome da instituição a exemplo de Fiocruz e Fundação Oswaldo Cruz, o que não foi feito para as demais instituições.
Importante mencionar o papel central da Fiocruz na rede de instituições brasileiras analisada. Ela possui o indicador de centralidade de intermediação mais elevado, seguida pela Universidade de São Paulo e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. O que reforça a importância estratégica da FIOCRUZ para a articulação da pesquisa orientada para a geração de tecnologias para o enfrentamento desta doença. A Universidade Federal da Bahia, apesar da sua importância no que tange ao número de publicações, não se apresenta como uma instituição com grande capacidade de conectar comunidades. As diferentes unidades da Fiocruz, por sua vez, apresentam elevada colaboração entre si e entre as diferentes instituições que desenvolvem pesquisa na área.
A tabela 13 mostra o número de pesquisadores que se disseram filiados as instituições brasileiras e que tiveram pelo menos três publicações na área.

Tabela 1: Número de Pesquisadores com três ou mais publicações em leishmanioses por Instituição no período de 2005 a 2014

Instituição Pesquisadores Instituição Pesquisadoes
 FIOCRUZ  348  Univ Fed Rio Grande do Norte  14
 Univ Fed Minas Gerais  182  Univ Brasilia  14
 Univ Fed Rio de Janeiro  131  Adolfo Lutz Inst  14
 Univ São Paulo  130  Univ Fed Uberlandia  11
 Univ Fed Bahia  56  Univ Fed Santa Catarina  11
 Univ Estadual Paulista  55  Univ Fed Maranhao  11
 Univ Estadual Maringa  45  Univ Fed Triangulo Mineiro  10
 Univ Fed São Paulo  34  Univ Fed Rural Pernambuco  10
 Univ Fed Ouro Preto  29  Univ Fed Mato Grosso  10
 Univ Fed Ceara  25  Univ Fed Espirito Santo  10
 Univ Fed Juiz de Fora  22  Fed Univ Para  10
 Univ Fed Piaui  18  Univ Fed Rondonia  9
 Univ Fed Paraiba  16  Univ Fed Sergipe  8
 Univ Fed Mato Grosso do Sul  16  Univ Fed Parana  8
 Univ Estadual Ceara  16  Univ Fed Goias  8
 Univ Estadual Campinas  16  Univ Fed Fluminense  7
 

SubGrupos de Pesquisa

Figura 3 - Visão geral dos subgrupos dentro da Fiocruz

Fonte: Elaboração própria a partir da WoS, 2016
 
O Grafo da figura 13 representa os subgrupos de pesquisa dentro da Fiocruz e as relações entre esses grupos. O tamanho do nó está relacionado ao número de publicações. Observa-se claramente que a colaboração no interior dos grupos é elevada. No que concerne a colaboração entre grupos, nota-se que os autores do grupo lilás  possuem colaborações com distintos grupos.
A seguir apresentamos os resultados das cinco áreas de conhecimento consideradas relevantes para subsidiar a geração de conhecimentos para o desenvolvimento de vacinas, reagentes para diagnóstico e medicamentos: Immunology, Pharmacology, Genetics, Epidemiology e Diagnosis.

Figura 4 - Subgrupos por área do conhecimento: Immunology

Fonte: Elaboração própria a partir da WoS, 2016

A área de imunologia é a que possui maior número de pesquisadores e publicações. Cada subgrupo foi formado a partir da declaração de filiação dos pesquisadores. O tamanho do nó relaciona-se ao número de publicações do pesquisador na área e as linhas representam as relações de coautoria. Como cada linha representa uma relação, os pesquisadores que possuem linhas mais grossas são os que possuem maior número de colaborações.
Os pesquisadores que colaboram entre si aparecem próximos, identificados pelas cores de seus respectivos subgrupos. Em alguns casos, como no subgrupo cinza escuro localizado no canto superior direito e subgrupo verde claro localizado abaixo deste, verifica-se mutualidade/coesão dos laços entre os principais pesquisadores. Destaca-se a produção do grupo da Fiocruz Bahia no canto inferior em verde e do grupo da Fiocruz Minas Gerais em lilás, particularmente no que tange as suas relações com os demais grupos, que possuem interações mais concentradas.

Figura 5 - Subgrupos por área do conhecimento: Pharmacology

Fonte: Elaboração própria a partir da WoS, 2016

O segundo maior grupo é formado por pesquisadores com publicações na área de Farmacologia. As colaborações entre subgrupos são menos intensas, fazendo com que estes apareçam mais definidos na rede. O subgrupo cinza escuro, identificado como Universidade Estadual de Maringá, é o que possui pesquisadores com maior número de publicações em farmacologia. Porém, o grupo em verde claro, ao centro e na parte inferior a direita, possui maior articulação com os demais grupos da rede. O grupo da Universidade Federal da Bahia, além de significativa produção em imunologia, aparece também na produção de conhecimento neste campo com parceria expressiva como o grupo da Universidade Estadual de Maringá.

Figura 6 - Subgrupos por área do conhecimento: Genetics

Fonte: Elaboração própria a partir da WoS, 2016
 
Em genética também foi encontrado um número elevado de pesquisadores. Levando-se em consideração o tamanho dos nós, o quantitativo de publicações entre os pesquisadores aparece como relativamente homogêneo. Levando-se em consideração o nome dos autores que aparecem nesta rede, provavelmente o  subheading atribuído ao termo genética abarca artigos relacionados à genética do parasita e genética do hospedeiro

Figura 7 - Subgrupos por área do conhecimento: Epidemiology

Fonte: Elaboração própria a partir da WoS, 2016

O quantitativo de publicações na área de epidemiologia é baixo quando comparado às áreas de imunologia, farmacologia e genética. Verifica-se que os pesquisadores e subgrupos nesta área não possuem relações consideradas fortes quando comparado a outras áreas.

Figura 8 - Subgrupos por área do conhecimento: Diagnosis

Fonte: Elaboração própria a partir da WoS, 2016

A área de diagnóstico é a que tem menor número de pesquisadores envolvidos. Como o tamanho do nó está relacionado ao número de publicações, a definição gráfica de quem são os pesquisadores mais representativos na área ficou clara. São poucos e bem definidos os subgrupos, os quais possuem colaborações entre grupos mas com maior intensidade dentro dos seus grupos.

Tabela 2: Correlações entre as áreas temáticas de conhecimento

  Immunology Pharmacology Genetics Diagnosis Epidemiology
 Immunology  1,00  0,09  0,44  0,50  0,30
 Pharmacology  0,09  1,00  0,09  -0,03  -0,09
 Genetics  0,44  0,09  1,00  0,37  0,38
 Diagnosis  0,50  -0,03  0,37  1,00  0,52
 Epidemiology  0,30  -0,09  0,38  0,52  1,00
Fonte: Elaboração própria

As correlações entre as diferentes áreas temáticas escolhidas foram consideradas fundamentais no estudo para avançar em questões altamente complexas das Leishmanioses, às quais o conhecimento fragmentado e disciplinar apresenta dificuldades em equacionar. Neste sentido, as cinco áreas temáticas de conhecimento consideradas estratégicas: Imunologia, Farmacologia, Genética, Diagnóstico e Epidemiologia e correlações entre elas encontram-se sumarizadas na Tabela 7.
 

Conclusões

A Fiocruz tem um papel de extrema relevância no contexto da pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação relacionados à doença, papel evidenciado tanto  no estudo exploratório de patentes e ensaios clínicos no país, quanto na análise das redes de colaboração científica. Assim, sua atuação como elemento articulador para a coordenação e integração de pesquisas e conhecimentos pode ser utilizado, no âmbito intrainstitucional, nacional e internacional.
Neste sentido, recomenda-se o estabelecimento de programas institucionais voltados ao estabelecimento de parcerias entre países, instituições de pesquisa, empresas e instituições filantrópicas para a coordenação e integração de recursos financeiros, competências e infraestrutura de modo a viabilizar a potencializar a translação de pesquisas promissoras em novos produtos e processos.
Concebe-se que o mapeamento dos principais países e organizações produtores de conhecimento e financiadores de pesquisas aliado à compreensão das dinâmicas de colaboração científica entre intituições, grupos de pesquisa e áreas temáticas no Brasil devem ser aprofundados em estudos futuros para subsidiar o delineamento de estratégias de coordenação e integração de recursos e competências para que conhecimentos sejam traduzidos em novas tecnologias mais adequadas e custo-efetivas para melhorar a qualidade de vida das pessoas acometidas e controlar a doença. Estratégias que devem ser iniciados no âmbito interno e nacional, a partir do delineamento e implementação de colaborações entre unidades da Fiocruz e instituições brasileiras.
 

Limitações da análise

Diferentes perspectivas sobre a colaboração na pesquisa poderiam ter sido exploradas. Reconhecemos a limitação do uso de dados de coautoria como indicador de colaboração científica sabendo que nem todos os esforços de colaboração resultam em publicações, e que nem todos os trabalhos em coautoria implicam necessariamente a colaboração sob a forma de compartilhamento de conhecimentos. Ainda assim, presume-se que na maioria dos casos, a coautoria indica uma cooperação ativa entre os parceiros, para além da simples troca de material ou informação.
 

Coordenação geral

Wagner de Jesus Martins - Colaboratório de Ciência Tecnologia e Sociedade, Diretoria Regional de Brasília (DIREB), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

Coordenação do estudo

Ricardo Barros Sampaio - Colaboratório de Ciência Tecnologia e Sociedade, DIREB, Fiocruz

 Equipe

Bethânia de Araújo Almeida – Instituto Gonçalo Moniz (IGM), Fiocruz

Bruna de Paula Fonseca e Fonseca - Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS), Fiocruz

Erika Santos de Aragão – Instituto de Saúde Coletiva (ISC), UFBA

Consultor especialista

Manoel Barral-Netto - Instituto Gonçalo Moniz (IGM), Fiocruz

Tipo de indicador: 
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