A luta de quem é cientista e mãe no Brasil

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Por   - Cientistas feministas*
 

Dados apresentados em maio pelo grupo Parent in Science, com base na resposta de 1182 pesquisadoras brasileiras, começam a preencher o vazio de conhecimento sobre o impacto da maternidade na produção acadêmica. Um dos motivos? Falta de políticas públicas.

*Este artigo é o primeiro de uma série de três matérias sobre maternidade e ciência.

Ter filhos, criá-los e fazer ciência, ao mesmo tempo, é uma equação que pode não fechar de forma positiva. Eventualmente, a mãe ou o pai precisam elencar prioridades e podem passar a dedicar menos tempo a alguma tarefa ou a alguém. Muito disso se dá pela falta de apoio no trabalho, em casa ou na sociedade de uma forma mais ampla. E, por uma questão de gênero, essa bomba estoura mais no colo das mulheres, já que, historicamente e socialmente, a mulher sempre foi mais vista como a pessoa do cuidado, do ambiente doméstico e da responsabilidade perante as crianças.

O que fazer para compreender melhor esse cenário e propor soluções para uma questão tão delicada e invisibilizada? Uma das respostas, segundo o grupo Parent in Science, está na busca por dados que falem sobre o impacto dos filhos na vida acadêmica de mulheres e homens. Entendendo a questão com números, é possível apontar a enorme necessidade de políticas públicas e iniciativas que levem em consideração a conciliação da maternidade e paternidade com a vida acadêmica.

Criado em 2017, o grupo, composto por cinco cientistas mães e um cientista pai, queria traçar o perfil de pesquisadoras que viraram mães recentemente, a nível nacional. Para isso, disponibilizaram formulários on-line, que ainda estão recebendo respostas, com foco nos seguintes grupos: cientistas mães, cientistas sem filhos, cientistas pais, pós-doutorandas e pós-graduandas. Os resultados dos dois primeiros grupos, com um total de 1182 respostas até abril deste ano, foram apresentados no I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência, realizado nos dias 10 e 11 de maio em Porto Alegre.

Dessas 1182 respondentes, 78% são mães e 22% não. “Os números sobre essa realidade das mães não existiam. Há análises mais subjetivas, como nas ciências sociais, por exemplo, onde já existe uma discussão grande sobre como a maternidade é percebida dentro do ambiente acadêmico. Mas não sabemos quantas docentes brasileiras são mães”, esclarece ao Cientistas Feministas Fernanda Stanisçuaski, idealizadora do projeto Parent in Science e bióloga do Departamento de Biotecnologia da UFRGS.

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Mãe de dois filhos pequenos e à espera do terceiro, a pesquisadora Fernanda luta por mais políticas brasileiras de apoio à cientista mãe. A criação do Parent in Science surgiu após uma postagem em seu Facebook pessoal em que comentava a experiência vivida depois da segunda licença-maternidade, de 2015. Os pedidos de bolsa submetidos a agências de fomento foram indeferidos porque as entidades alegavam falta de produção acadêmica. “Como a maternidade vem carregada de culpa, eu achei que o problema fosse eu”, diz. Como resposta à postagem, Fernanda recebeu inúmeros comentários de outras pesquisadoras que passaram – e passam – pela mesma situação.

De acordo com alguns dados obtidos, a média de idade da mulher no nascimento do primeiro filho é de 32 anos, a maioria das respondentes tem de uma a duas crianças e três anos é o tempo médio que decorre desde a contratação até a gravidez para a maioria das cientistas. Ou seja, no período inicial do estabelecimento dessas pesquisadoras dentro da universidade.

“O impacto da gravidez nessa idade é maior do que se essa mulher estivesse na universidade há um número maior de anos. Isso é uma consequência da nossa formação. A gente sai da graduação, entra na pós-graduação, depois no pós-doutorado e só então numa instituição”, pontuou Stanisçuaski durante o Simpósio, fazendo referência aos cerca de nove anos de formação para um pesquisador após a graduação.

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Para as respondentes com filhos, a taxa de publicação de artigos só volta a subir depois de cerca de três do nascimento da criança. Imagem: Parent in Science

A fase é crítica para muitas cientistas. A bióloga defende que, no período de licença-maternidade, as mulheres não deveriam estar preocupadas com suas carreiras, e, sim, focando no recém-nascido. A volta à carreira depois desse tempo também pode ser outro ponto de conflito. O motivo: uma criança pequena em casa não para de dar trabalho aos seis meses de idade; e o trabalho não para de exigir atenção.

“Naquele momento em que precisamos de um pouco de aceitação, a gente recebe nãos. Há uma questão de desestimular a permanência da cientista por essa questão de falta de apoio e empatia. O quanto estamos mandando cientistas embora por causa disso?”, questiona.

 

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O Simpósio realizado em Porto Alegre foi inclusivo: o espaço de recreação para os pequenos e pequenas estava garantido.

Onde estão os pais dessa história?

Único homem presente no grupo, Felipe Ricachenevsky, biólogo da Universidade Federal de Santa Maria, teve cinco dias corridos de licença-paternidade quando a filha, Maya, nasceu em 2016. “É um erro. Em primeiro lugar, tem que ficar claro que pai presente deve ser a regra, e não um luxo, e isso começa com a participação igual dos cuidadores. Ainda há muitos homens que não percebem isso, infelizmente. Por outro lado, a legislação deve permitir que essa participação efetiva e igualitária aconteça; como o pai vai poder ser pai se ele não ficar em casa?”, observa o pesquisador.

Um dos dados levantados pelo grupo mostra essa desigualdade: mais da metade das respondentes disse que é a única cuidadora do(s) filho(s), enquanto 34% responderam que ambos os pais cuidam. Segundo Stanisçuaski, o resultado foi uma surpresa porque essa não era a realidade do grupo que criou o Parent in Science: ali, os responsáveis dividem as responsabilidades de forma igualitária.

E o que dizer sobre a produção acadêmica dos pais? Será que cai da mesma forma? Por enquanto, o grupo não tem como afirmar com base em dados: desde que o formulário para cientistas pais foi lançado on-line, em fevereiro deste ano, 64 pessoas responderam. “Não temos como analisar a produção científica com esse número restrito. A partir de histórias pessoais de pais que conhecemos e que dividem igualmente a criação da criança, podemos dizer que, sim, a produção deles pode ser afetada também. No entanto, eles ainda são minoria”, observa a bióloga.

Ricachenevsky aponta que, apesar de muito ainda precisar avançar, há muitos pais que dividem de igual para igual o cuidado e que, mesmo assim, percebem que o ônus profissional, mesmo em uma situação mais próxima do ideal, ainda recai sobre as mães. “É pouco provável que críticas ao fato de ter filhos sejam feitas aos pais no ambiente de trabalho. Os homens, tanto os pais como os não pais, precisam atuar para que isso se torne inaceitável. Um dos primeiros passos, a meu ver, é começar a dividir as críticas: se forem criticar uma mãe por ter filhos, que me critiquem também, pois eu vou dedicar o mesmo tempo à criança”, defende.

O vazio deixado pelas políticas públicas

Se a licença-paternidade é praticamente inexistente, o cenário não é diferente quando o foco recai sobre as medidas das agências brasileiras de incentivo à ciência. De acordo com Stanisçuaski, o mínimo que deveria ser oferecido por editais de agências públicas é a consideração ao tempo de licença-maternidade. “Hoje em dia, não existe praticamente nada de política de apoio para cientistas mães. A primeira vez que a gente viu menção à maternidade num edital foi a chamada pública do Instituto Serrapilheira”, disse a bióloga, referindo-se à instituição privada criada em 2017 pelo documentarista João Moreira Salles e a linguista Branca Moreira Salles. O Serrapilheira busca apoiar financeiramente projetos de pesquisa e de divulgação científica. Na primeira convocação para projetos de pesquisa, explicitou que os pesquisadores candidatos deveriam ter recebido o grau de doutor depois de 1o de janeiro de 2007, sendo que essa condição poderia ser ajustada em um ano (janeiro de 2006) para mulheres com um filho e em dois (2005) para aquelas com dois ou mais filhos.

No Simpósio de Porto Alegre, representantes da Capes e do CNPq estavam presentes. A bióloga comenta que o sentimento, ao final do evento, é que algo pode ser feito a favor da questão da maternidade na ciência se o Parent in Science for atrás de um diálogo. Como resultado do encontro, um documento está sendo gerado pelo grupo e por participantes com sugestões de propostas, o qual será encaminhado em breve às agências de fomento.

A pressão por mudanças continua. Em maio, o grupo começou a estimular a campanha #maternidadenoLattes, convidando pesquisadoras de todo o Brasil a informar o período de suas licenças na bio da plataforma Lattes. Para Ricachenevsky, a maternidade e a paternidade não são indicativos de que os pesquisadores são pouco produtivos, mas apenas que estão passando por um período em que a produtividade pode cair. Um período da vida, que requer mais compreensão por parte de diferentes atores. “O potencial criativo e de resolver problemas científicos está lá. Precisamos trabalhar juntos; isso começa com dividir igualmente o ônus e a dificuldade de reconciliar a carreira e a nova vida familiar”, acrescenta.

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Na próxima matéria, vamos trazer depoimentos de pesquisadoras que sofreram algum tipo de assédio durante e depois da gravidez.

Saiba mais:

  • Leis que abordam as licenças-maternidade e paternidade:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8112cons.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11770.htm

*Texto publicado pelo blog Cientistas feministas

https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/06/09/a-luta-de-quem-e-c...

Tipo de em foco: 
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