“Onde está, afinal, a civilização?": a intimidade imaginada de Oswaldo Cruz em "sonhos tropicais", de Moacyr Scliar

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Por Gustavo Steffen de Almeida
 

Mesmo a existência de microrganismos era questionada, e não só entre o povo pobre e sem instrução. Em alta à época, o positivismo tinha grande presença entre políticos e intelectuais brasileiros e, apesar de favorável à ciência, demonstrava um moralismo acentuado. Teixeira Mendes, notória figura política e adepto do pensamento de Comte, teria dito: “Os sanitaristas desconhecem a natureza moral do problema higiênico e reduzem tudo a questões materiais, visando assim a manter seus empregos bem remunerados”.

Osanitarista Oswaldo Cruz é tratado em seus aspectos humanos, falíveis e sensíveis por um admirador que conversa diretamente com ele – ainda que estejam separados por quase um século. A original maneira de contar a história do grande cientista brasileiro, para além da usual bajulação ou do mero relato acadêmico, é o que dá corpo a Sonhos tropicais, de Moacyr Scliar.

Num misto de ficção e narrativa histórica, um médico desempregado e alcoólatra radicado no Rio de Janeiro do final do século XX entrelaça a vida de Oswaldo Cruz à sua própria. Mais do que por simples admiração pelo trabalho do médico sanitarista nascido em 1872, o narrador anônimo vasculha quase diariamente na biblioteca do instituto criado por Cruz – originalmente Manguinhos, hoje Instituto Oswaldo Cruz – todas as obras que tratem da vida de seu herói, em busca de companhia e amizade. Sim, a amizade de um dos pais da vacinação no Brasil, ainda na época do Rio capital federal, é o que busca o (autoconsiderado) fracassado em seus “diálogos”.

Scliar faz com que seu personagem nos conte a história do doutor Oswaldo Cruz como se estivesse na pele de um amigo muito próximo, que sabe o que sentia e pensava o médico quando das maiores decisões e como reação tanto às mais veementes críticas quanto ao reconhecimento ainda em vida. Mais do que nos fatos publicamente notórios da vida do eminente pesquisador, o narrador sente-se presente na vida íntima de Cruz, e nos segreda os pensamentos mais profundos e sinceros do doutor nos seus momentos de intimidade, junto à família e amigos. Confidencia-nos, por exemplo, que seu pai, autoritário em certa medida, porém de reconhecida competência como médico, foi um importante impulsor para a carreira do sanitarista. Primeiro por ter colocado o filho, aos quinze anos, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e depois por ter sido alguém em quem Oswaldo mirava suas atenções: “Gostas tanto dele que queres imitá-lo? Ou o odeias tanto que queres superá-lo?”, questiona o narrador ao ainda estudante de medicina Oswaldo Cruz. A morte do próprio pai no dia em que é aprovado em sua defesa de doutorado é um momento tocante nessas dúbias confusões internas.

Mas Oswaldo Gonçalvez Cruz não é a única personalidade célebre da história apresentada em Sonhos tropicais. Durante o processo de tornar-se médico, pesquisador, político, o doutor Cruz viu-se exposto às mais inovadoras ideias das ciências a nível mundial, sendo outros grandes pesquisadores apresentados, pelo seu incondicional fã, como seus antecessores na árdua labuta de fazer da ciência e do pensamento importantes aliados da humanidade. Primeiro, pelas palavras dos professores da universidade, Cruz conhece pesquisadores da magnitude de Ignaz Semmelweis, Antoni van Leeuwenhoek, Luis Pasteur, o que o leva ao interesse de sua vida: o estudo das mais diminutas e primitivas formas de vida, os microrganismos. Alguns anos depois, em Paris, em estágio no Instituto Pasteur – templo da microbiologia –, encontra-se na presença de figuras notáveis das ciências e também das artes e política. Émile Roux e Adrien Proust (pai do escritor Marcel Proust, a quem também conhece) o colocam na trilha das pesquisas em políticas higiênico-sanitárias mais avançadas do mundo.

Enquanto nos conta da vida da importante figura, o médico desempregado nos mostra como era a vida no Rio de Janeiro – cidade mais importante do país – na virada do século XIX para o XX. O grande número de imigrantes de diversos países que aportaram no Brasil, incentivados pelo governo brasileiro em busca de suprir a mão de obra vaga pelo fim da escravidão, mas também fugidos das próprias condições de vida no velho continente, começa a dar, somados aos muitos descendentes de africanos e portugueses, além dos indígenas, a cara multicultural da cidade. Mostra, também, que o Rio é então uma cidade bastante problemática. Pobreza extrema, moradias insalubres e saneamento ínfimo são marcas que refletem o que era o Brasil àquela época. Um país assolado por inúmeras doenças, tropicais ou não. Como diz o presidente Rodrigues Alves na ocasião em que encontra Cruz pela primeira vez: “Esta cidade é um desastre completo (…), essas doenças todas, a febre amarela, a varíola, a peste, a tuberculose, a sífilis”.

A conversa com o presidente (Rodrigues Alves sofria de recorrentes e inexplicáveis acessos de sonolência que lhe renderam o apelido de “Soneca”) dá-se em virtude da nomeação de Cruz como diretor-geral da Saúde Pública, após ter-se mostrado muito eficiente ao diagnosticar, com Adolfo Lutz e Vital Brasil, um surto de peste bubônica originado na região de Santos. Cruz havia sido nomeado diretor do recém-criado Instituto Soroterápico Municipal, que produziu, pela primeira vez em território nacional, o soro e depois a vacina para a doença. A segurança dessa vacina fora testada por Oswaldo Cruz em si próprio.

A nomeação do promissor sanitarista ao cargo tão importante tinha um intento claro: erradicar a febre amarela do Rio. Para tanto, ele teria os meios que julgasse necessários e o total apoio governamental. Aplicando métodos de controle similares ao que hoje utilizamos no combate à dengue, principalmente a eliminação de criadouros dos mosquitos, o médico consegue ótimos resultados e as mortes por febre amarela caem vertiginosamente na capital federal.

Apesar do sucesso que teve na empreitada, não foram poucas as críticas que sofreu. O prefeito da cidade, Pereira Barros, aproveitou a oportunidade – e o pretexto – da campanha anti-amarílica para levar a cabo uma série de demolições, desapropriações, remoções e reorganização de espaços da cidade, o que, por ter sido feito de maneira autoritária, gerou a indignação de grande parte da população carioca contra os políticos e, por tabela, contra os sanitaristas.

Como nos conta Scliar através de seu narrador onipresente, mesmo a existência de microrganismos era questionada por muitos – não só dentre o povo pobre e sem instrução. Em alta à época, a corrente filosófica do positivismo tinha grande presença nas camadas políticas e intelectuais brasileiras e, apesar de, em teoria, favorável à ciência, demonstrava um moralismo acentuado. Teixeira Mendes, notória figura política e adepto do pensamento de Auguste Comte, teria dito em dado momento: “Os sanitaristas desconhecem a natureza moral do problema higiênico e reduzem tudo a questões materiais, visando assim a manter seus empregos bem remunerados”. Esse tipo de pensamento mostrava-se um problema para os que tentavam aplicar métodos científicos na resolução dos problemas sanitários.

A revolta da ignorância politicamente patrocinada
No entanto, o caso da febre amarela foi apenas o começo. A política de vacinação obrigatória contra a varíola foi o que desencadeou os maiores contratempos. Scliar nos faz entender como a chamada “revolta da vacina” teve menos a ver com a vacinação que com questões de ordem política. O que ocorre é que a maneira autoritária com a qual foi imposta foi a “deixa” que faltava para que diversos grupos políticos, outrora adversários, se unissem contra o governo de Rodrigues Alves e seus aliados, como Pereira Barros e, de uma forma ou de outra, Oswaldo Cruz – que chegou a sofrer ameaças de morte e foi vítima de uma pedrada durante um protesto de rua. A oposição enfática à vacina era só uma desculpa para a tentativa de modificar-se o contexto político; se apoiava no discurso moralista de grande apelo popular de que, ao adentrar os quartos das damas, desnudando seus braços para aplicação da lanceta (equipamento de vacinação antecessor às seringas), os agentes de saúde estariam promovendo uma afronta aos valores familiares tradicionais e à pureza das mulheres – a “brutalização dos corpos de filhas e esposas”, nas palavras do militar e político (positivista) Lauro Sodré, um dos instauradores da revolta.

Barricadas, manifestações, saques e enfrentamentos armados… a situação havia ficado bastante complicada e o caos se instalou. Sendo um cientista, um homem de pensamento racional que estava há pouco no conturbado mundo da política, Oswaldo Cruz sentiu-se extremamente consternado com os rumos que as coisas haviam tomado desde que se iniciara a campanha – indiscutivelmente necessária, em sua opinião – de vacinação contra a varíola. Através do quase mediúnico narrador da história, conseguimos adentrar o pensamento do sanitarista: “Onde está, afinal, a civilização? Será que ela se restringia a uma delgada camada, revestindo precariamente a lava incandescente da barbárie?”. Derrotada, a revolta da vacina se tornou um marco de como as questões de ordem científica não conseguem se dissociar do contexto político.

O jornal satírico O Malho, do início do século XX, vaticina a condição de muitos que, assim como Oswaldo Cruz, se dedicam a fazer ciência no Brasil. Numa anedótica conversa, na ocasião de um prêmio recebido pelo brasileiro numa importante conferência em Berlim, um pesquisador alemão pergunta se, agora, os brasileiros deixarão de zombar e criticar suas atitudes. Ao que Oswaldo responde: “Não sei. Meu país só reconhecerá o mérito de seus homens de ciência quando abandonar a politicagem de campanário… Ou quando eles morrerem, que é o mais certo”.


Imagem de destaque:  Oswaldo Cruz examina microscópio em laboratório de Manguinhos, observado por seu filho Bento Oswaldo Cruz e por Burle de Figueiredo. Data: 1910 (produção). Acervo da Casa de Oswaldo Cruz – COC/Fiocruz.

*Gustavo Steffen de Almeida é graduado em ciências dos alimentos (USP), mestre em ciências de alimentos (Unicamp) e especialista em jornalismo científico pelo Labjor/Unicamp.

Referência:

SCLIAR, Moacyr. Sonhos tropicais. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 212 p.

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